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Uma decisão acertada

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       Nunca li absolutamente nada de Thomas Bernhard, autor austríaco que produziu uma vasta obra literária. Para falar a verdade eu não o conhecia e nem fazia ideia dos livros por ele escritos. Uma grande amiga – também amante da literatura e dos livros –, foi quem sugeriu a leitura. Minha confiança no seu gosto é tamanha que eu nem ousei ou ouso discutir.      O primeiro empréstimo foi Sim. É curto e trata da história de um escritor – o narrador – que se isola para conseguir escrever. Essa introspecção a que se propõe, faz com que procure no vizinho Moritz alguém para desabafar, alguém que poderia compreendê-lo. Mas,  ao buscar a solidão para se dedicar aos estudos e fugir, assim, de toda distração, acaba caindo em um estado depressivo, com pensamentos suicidas. Em um desses momentos, chega de surpresa à casa de Moritz, um casal. O marido suíço queria discutir negócios, enquanto a esposa, persa ou armênia, permanece em silêncio. Isso chama a at...

A decisão pela troca

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    Já não sei quem eu sou. Quando falo isso não me refiro a nome, CPF, profissão, moradia, família. Eu quero me referir a atos, comportamentos, pensamentos, sentimentos e sensações. De novo a maternidade é meu pano de fundo. Mas é ela – e só ela – que me colocou em uma posição totalmente nova, onde me vi completamente sem chão e sem controle algum, transformando-me em uma desconhecida para mim mesma.     Querer escrever sobre esse assunto novamente veio por conta de uma narrativa de Lygia Bojunga chamada A troca e a tarefa , presente no livro Tchau . Nunca li nada da autora, mas uma amiga muito próxima enviou-me o texto e pediu para que eu lesse e depois dissesse o que senti e interpretei da leitura. É curto, 25 páginas, ela disse. Prometi que leria mais tarde, mas algo chamou minha atenção que eu dei um jeitinho e fui lendo aos poucos enquanto a rotina de casa se desenvolvia.      Deixei aquela leitura fluir dentro de mim por um bom período; longo, a...

Cecília

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      Apesar de eu não ser muito fã do uso do Spotify , posso citar um ponto positivo nessa busca por músicas com base no gosto musical do ouvinte:  Cecília . Descobri – ou descobriram para mim – essa preciosidade de Bernardo Guimarães, Leo Cunha e Luiza Lara. Canção bem pequena, mas com uma profundidade que logo me arrancou lágrimas nos olhos, um nó na garganta e um aperto no peito.     Bernardo, pianista e compositor mineiro de Divinópolis-MG, criou a melodia em sua cabeça a fim de ninar sua primeira filha cujo nome é Cecília – nome este que carrega todo um significado para ele. Já Leo Cunha trouxe esse poema lindíssimo que traz um encanto merecido para cada nota musical – Bernardo diz que foi algo premonitório assim, porque, hoje, aos 7 anos, sua Cecília é fascinada pelo céu, pela Lua, pelas estrelas e pelo universo. Enquanto Luiza Lara deu a voz, fechando com chave de ouro essa obra tão singela.     São 6 minutos e 28 segundos de canção que eu...

Uma nova educação

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      Esta escrita segue um pouco a temática da anterior e, talvez, traga algumas contradições com relação a ela – e, portanto, a mim mesma. Sinto que o assunto "filhos" parece não ter fim. E, de verdade, não tem mesmo. Ele só vai trazendo novas e desafiantes fases.     Dessa vez quem me colocou a refletir foi Elisama Santos , com seu livro "Educação não violenta". De forma didática e repleto de exemplos reais que se encaixam à realidade de muitos pais, mães e cuidadores, a autora esmiuça algum dos pontos trazidos, inclusive, por Marshall Rosenberg em sua obra "Comunicação não-violenta".      Em determinado momento da leitura, a escritora me deu abertura de correr para o último capítulo. Até bem pouco atrás eu não faria isso – a virginiana perfeccionista –, mas resolvi seguir minha vontade e fui. Nele, ela aponta que, antes de se querer fazer mudanças significativas na relação com os filhos, é preciso observar como é a comunicação que temos conos...

Começar de novo e de novo

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         Desde abril que não escrevo. Tanta coisa aconteceu. Mudança de casa. Nova rotina. Despedida do nosso companheiro canino. Visitas. Sem contar que nossa pequena está crescendo, aprendendo a falar e a se comunicar de forma mais assertiva com a gente.     Nessa estrada cheio de curvas, vários sentimentos e emoções – talvez um pouco desconhecidas – chegaram com intensidade: raiva, irritabilidade, tristeza, cansaço, arrependimento, culpa, insegurança, animosidade, ansiedade e por aí vai.      Filhos mostram muita coisa , uma amiga disse há alguns dias. É isso. Na lida diária com uma criança, vejo que ela acaba mostrando tudo, escancara o que tenho de mais puro, mas também, o que ainda preciso lapidar.      Tê-los, criá-los e educá-los requer muita força de vontade, muita paciência, muito jogo de cintura, muita determinação e, acima de tudo, discernimento para não se cobrar o tempo todo. Tudo muito lindo! Eu tenho isso? ...

Preenchimento de vazios

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           Terminei de ler "Paris é uma festa" de Ernest Hemingway . Antes de iniciá-lo, porém, devo confessar que minha expectativa era zero. Logo no começo, a sensação mudou um pouco. Do meio para o final a vontade de continuar lendo só aumentava. De maneira geral, o livro traz as evocações parisienses do autor que lá morou durante a década de 1920. Os escritos fazem parte do seu baú de memórias.     De alguma forma  senti querer escrever algo sobre a leitura que fiz, só não sabia bem por onde começar, o que retratar.  Não se aborreça , diz Hemingway a mim. E continua: Você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem que fazer é escrever uma frase verdadeira . Escreva a frase mais verdadeira que puder . Diante dessa sugestão, eu quem abri meu baú de memórias e fui para o ano de 2008; para o meu quarto cuja janela dava de frente para o Belfast Lough , na instituição irlandesa onde morei e trabalhei; para o mundo do autism...

Entre andaças e tropeços

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    Recentemente notei uma inconstância no ritmo da vida. Como se fosse uma expansão e contração se revezando não só a nível de mundo – estações, ano seguindo ano, dia após dia, as horas –, como ao meu redor – a morte de alguém querido, a doença na família, o nascimento de um bebê – e mesmo dentro de mim – meus desejos, necessidades, vontades e mesmo repulsas.      É como se altos e baixos fizessem um acordo entre si para fazer parte da vida humana. C. S. Lewis, em seu livro "Cartas de um diabo a seu aprendiz", chama isso de Lei da Ondulação: os seres humanos experimentam a constância apenas em meio à ondulação , há um retorno repetitivo a um nível do qual frequentemente se desviam, uma série de altos e baixos.     Nesse livro, que  chegou em minhas mãos por meio de indicação,  basicamente um diabo se corresponde com seu sobrinho aprendiz. Escrito de maneira cômica e séria, o tio Maldanado dá várias sugestões de como Vermelindo deve "atacar" ...

Presença e autocomprometimento

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    Deixei o Instagram no final de novembro de 2024. Não é a primeira vez e pode não ser a última. Ao sair percebi que minha intenção inicial para entrar – divulgar meus textos, trazer a literatura de forma um pouco diferente, instigar as pessoas a buscarem o livro/filme/música/poema/obra que eu citava – foi jogada para outro plano.     Alguns meses depois do meu feito, ouvi o podcast " De saída - A vida fora da internet " e meus motivos para dar um tempo da rede social ganharam mais apoio. Nesse conteúdo de áudio, Jout Jout reaparece abordando questões pessoais sobre o porquê do seu desaparecimento da web .     Sumir da internet "era algo que precisava ser feito", diz ela. Simples assim. Eu também senti que era algo que eu necessitava fazer. Assim como a ex- youtuber,  notei que passei a gastar cada vez mais do meu tempo com o que as pessoas estavam achando do que eu produzia. E, pensando bem, o curtir não equivale, necessariamente, a ter meu conteú...

Onde meu coração deseja estar

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    Foi uma troca de livros entre minha irmã e eu. Era para ser presente de Natal, mas chegou só em janeiro. De certa forma, o título calhou muito bem com o começo de mais um ano. "Pra vida toda valer a pena viver", da médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, veio embaladinho com bilhete e tudo.      O que faremos com o nosso tempo de vida até que a morte nos leve? , pergunta Ana logo na introdução. Falar em morte pode soar meio estranho, algo mórbido, mas, definitivamente, não é. A autora consegue trazer esse tema de maneira leve e com muito encanto. Pois, então, o que faremos naquilo que ela denomina de o durante feliz, uma vez que a vida não se resume a aguardarmos pelo final feliz dos contos de fada. Nosso percurso contém muitos finais, começos e recomeços – alguns felizes e outros nem tanto – que merecem um olhar mais atencioso da nossa parte.     Um ponto a se considerar nesse caminho diz respeito a nossa bússola "quebrada" – aqui há a mençã...

A ambivalência da maternidade

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    As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender. Há alguns anos havia lido "A filha perdida", de Elena Ferrante, pseudônimo de uma autora italiana – sua identidade é mantida em sigilo – que trata sobre a ambivalência da maternidade. Hoje, por algum motivo que eu ainda não quero colocar para fora, resolvi retornar a ele. E essa frase, que termina o primeiro capítulo da obra, já traduziu muito do que se passa aqui dentro.     Ser mãe foi uma das minhas maiores aventuras. O maior risco que já tomei; o maior medo que já senti; a maior incerteza em meio a tantas incertezas dessa vida. Foi pensado sim, comigo mesma e com aquele que me acompanha há 14 anos, mas a decisão final – ter ou não ter? – necessitou de muita coragem. Aliás, a maior que eu tive até aqui.      A responsabilidade de cuidar de alguém. Esse foi o ponto crucial que impedia o meu querer. Eu acreditava que como eu não  sabia cuidar de mim direito, co...