Presença e autocomprometimento
Deixei o Instagram no final de novembro de 2024. Não é a primeira vez e pode não ser a última. Ao sair percebi que minha intenção inicial para entrar – divulgar meus textos, trazer a literatura de forma um pouco diferente, instigar as pessoas a buscarem o livro/filme/música/poema/obra que eu citava – foi jogada para outro plano.
Alguns meses depois do meu feito, ouvi o podcast "De saída - A vida fora da internet" e meus motivos para dar um tempo da rede social ganharam mais apoio. Nesse conteúdo de áudio, Jout Jout reaparece abordando questões pessoais sobre o porquê do seu desaparecimento da web.
Sumir da internet "era algo que precisava ser feito", diz ela. Simples assim. Eu também senti que era algo que eu necessitava fazer. Assim como a ex-youtuber, notei que passei a gastar cada vez mais do meu tempo com o que as pessoas estavam achando do que eu produzia. E, pensando bem, o curtir não equivale, necessariamente, a ter meu conteúdo lido, muito menos que meu público realmente gostou do que escrevi. Fora isso, eu ficava muito tempo rolando o feed de "notícias" sem um foco específico.
O afastamento do Instagram é umas das ações trazidas por Anna Lembke, psiquiatra e autora do livro "Nação dopamina", indicado por Jout Jout no podcast. A médica desenvolveu uma estrutura aplicável a hábitos inadequados de consumo – desde drogas convencionais, como álcool e nicotina, até qualquer substância, ou comportamento, de alta dopamina que ingerimos em demasia por muito tempo, ou simplesmente com o qual queríamos ter uma relação um pouco menos torturante – e um deles é justamente a abstinência.
No entanto, depois de dois meses sem acesso à rede social, eu continuava procurando o celular a todo e qualquer custo. Fazendo um retrospecto – inclusive esse é outro passo sugerido por Anna em sua estrutura – vejo que, após a maternidade fazer parte da minha vida, eu passei a buscar o celular de forma mais automática e, na maioria das vezes, sem uma razão aparente.
É claro que eu tinha meus objetivos por trás do meu uso compulsivo – mais um passo da estrutura: ver se havia recebido mensagem de WhatsApp, mesmo com a alternativa de aviso sonoro ligado; averiguar, mais de uma vez, o status da minha compra da Amazon; visualizar se chegou e-mail novo e por aí vai. Um ponto que ressalto é que, no decorrer do dia, o smartphone estava sempre comigo, seja no bolso, na mão ou em qualquer local perto do meu alcance.
Praticamente um vício. Praticamente não, é um vício. É assim que passei a designar o meu uso desse objeto a partir da leitura do livro e de ouvir Jout Jout. Por trás desse meu comportamento existe alguém ainda tentando se encontrar nesse mundo do maternar, há alguém querendo se distrair da rotina.
Fazemos praticamente qualquer coisa para nos distrair de nós mesmos, afirma a autora. Alguns tomam comprimido. Alguns se estendem no sofá, maratonando Netflix. Outros leem romances baratos – o vício da própria Anna que ela aborda no decorrer do livro. E eu tenho um relacionamento abusivo com o smartphone.
Autocomprometimento é a palavra-chave. Trata-se de uma maneira de criar, de forma intencional e espontânea, barreiras entre a gente e nossa droga de escolha, para mitigar o hiperconsumo compulsivo. Foi o que fiz com a rede social, resta agora eu observar com mais atenção minhas ações frente ao uso do celular. A ideia que Anna traz é não tentar escapar da realidade por meio das diversas atrações disponíveis, mas correr em direção à vida; mergulhar a fundo nela; vestir a camisa; parar de fugir do que quer que estejamos querendo escapar; encarar seja lá to que for. Viver sim, mas de forma presente. É o que estou buscando.

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