Começar de novo e de novo


    
    Desde abril que não escrevo. Tanta coisa aconteceu. Mudança de casa. Nova rotina. Despedida do nosso companheiro canino. Visitas. Sem contar que nossa pequena está crescendo, aprendendo a falar e a se comunicar de forma mais assertiva com a gente.

    Nessa estrada cheio de curvas, vários sentimentos e emoções – talvez um pouco desconhecidas – chegaram com intensidade: raiva, irritabilidade, tristeza, cansaço, arrependimento, culpa, insegurança, animosidade, ansiedade e por aí vai. 

    Filhos mostram muita coisa, uma amiga disse há alguns dias. É isso. Na lida diária com uma criança, vejo que ela acaba mostrando tudo, escancara o que tenho de mais puro, mas também, o que ainda preciso lapidar. 

    Tê-los, criá-los e educá-los requer muita força de vontade, muita paciência, muito jogo de cintura, muita determinação e, acima de tudo, discernimento para não se cobrar o tempo todo. Tudo muito lindo! Eu tenho isso? Óbvio que não. Talvez esteja aí o motivo dessa avalanche sentimental/emocional. 

    Foi durante a leitura do livro "Comunicação não-violenta", do psicólogo americano Marshall Rosenberg, que uma chave virou. Não é o comportamento das outras pessoas, e sim nossas próprias necessidades que causam nossos sentimentos. No frigir dos ovos: a causa dos meus sentimentos não está lá fora, muito menos no que o outro faz.

    No entanto, confesso que sempre analisei e julguei – e ainda e analiso e julgo – as pessoas, bem como suas atitudes, ao invés de concentrar minha atenção nas minhas necessidades e se elas estão sendo atendidas ou não. 

    E quais são elas? Achei uma pergunta bem difícil de responder. Nessa rotina da maternidade parece que eu e minhas necessidades se perderam de alguma forma. Aquelas palavras do autor, entretanto, me fizeram parar e pensar sobre essa questão – que, aliás, eu ainda estou refletindo e, talvez, sirva de assunto para uma próxima crônica.

    Com a noção do que realmente necessito, a partir do que eu sinto, fica mais fácil de expressar qualquer sentimento, no sentido de me comunicar com o outro de forma mais empática. E é esse um dos pontos trazidos por Marshall em seu livro: nós, seres humanos, de maneira geral, não conseguimos nos comunicar adequadamente porque não entendemos o que sentimos e o que necessitamos e, consequentemente, não sabemos como expressar isso.

    Além do mais, ao expressarmos nossas reais necessidades – geralmente na forma de desconforto, de julgamentos, de críticas, de negativas ou até mesmo sem pronunciar uma palavra –, o outro, muito provavelmente, não será capaz de discernir o que de fato estamos pedindo. É preciso ser bem claro a respeito do que queremos de alguém, assim, a chance de obtermos o que desejamos aumenta.

    A leitura de Marshall Rosenberg não é tão simples assim. Vai muito além de técnicas. Está mais para uma conduta de vida que requer um constante vai e vem. Mas, de alguma forma, ela trouxe à tona pontos que eu ainda não havia refletido; pontos que exigirão a desconstrução de determinados aprendizados que construí ao longo da minha estrada; pontos, enfim, que podem me ajudar a acolher meus sentimentos e a ter resiliência o bastante para começar de novo – e de novo, e de novo – depois das possíveis quedas que ainda virão. 
 

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