Uma decisão acertada
Nunca li absolutamente nada de Thomas Bernhard, autor austríaco que produziu uma vasta obra literária. Para falar a verdade eu não o conhecia e nem fazia ideia dos livros por ele escritos. Uma grande amiga – também amante da literatura e dos livros –, foi quem sugeriu a leitura. Minha confiança no seu gosto é tamanha que eu nem ousei ou ouso discutir.
O primeiro empréstimo foi Sim. É curto e trata da história de um escritor – o narrador – que se isola para conseguir escrever. Essa introspecção a que se propõe, faz com que procure no vizinho Moritz alguém para desabafar, alguém que poderia compreendê-lo. Mas, ao buscar a solidão para se dedicar aos estudos e fugir, assim, de toda distração, acaba caindo em um estado depressivo, com pensamentos suicidas. Em um desses momentos, chega de surpresa à casa de Moritz, um casal. O marido suíço queria discutir negócios, enquanto a esposa, persa ou armênia, permanece em silêncio. Isso chama a atenção do escritor, que parece se identificar com ela e os dois criam ali uma amizade.
Um tema que liga Sim com a obra Origem, que foi aquela que mais me identifiquei – basicamente relatos autobiográficos em que o autor traz sua infância e adolescência marcadas por muitas dificuldades –, é o suicídio. Ambas trazem esse assunto que é algo bastante presente na escrita de Thomas Bernhard. Outro ponto em comum é o próprio estilo de escrever: um texto corrido, praticamente sem capítulos, e muitas repetições ao longo da obra.
É justamente essas repetições que, ao meu ver trouxeram fluidez em minha leitura. É como se Bernhard estivesse conversando comigo o tempo todo. Aliás, em uma dessas conversas, cujo tema trata sobre seu trabalho de aprendiz em uma mercearia que ficava na direção oposta a que estava habituado a percorrer, o escritor revela anos felizes e alegres da sua trajetória. Foi um período em que decidiu, por si só, abandonar o ginásio, envolvendo-se com o comércio e com a música.
Para tomar a direção oposta, entretanto, o autor enxerga que uma separação era necessária, uma vez que a decisão que tomara ia contra os preceitos e indicações do avô – aquele a quem mais amava na vida; a figura que o escolara na solidão e na autossuficiência; seu grande elucidador, o primeiro, o mais importante e, no fundo, o único. Então, se não quisesse afundar, Thomas precisava se separar daquele que era tudo pra ele, precisava se apartar de tudo. E foi justamente o que fez de uma hora para outra, sem saber quais seriam as consequências.
Li e reli essa parte do livro dezenas de vezes. Meu cenário está muito longe de ser comparado ao do escritor que vivera durante o período da Segunda Guerra Mundial. Mas, eu também precisava tomar uma decisão – talvez não na direção oposta; eu também precisava me apartar de situações e relações – pelo menos por um tempo; precisava, pura e simplesmente, recalcular a rota da vida ou me reencontrar nessa rota.
Para os olhos de quem está de fora pode ser uma decisão muito simples. Não é, entretanto. Levou uma semana, exatamente uma semana, entre ruminações, cálculos, diálogos, argumentações, silêncios, desavenças e acordos. Não houve apoio explícito de ninguém. Minha decisão, eu precisava tomar sozinha e por conta própria, assim como Thomas Bernhard fez ao ir na direção oposta.
A consequência de sua ação trouxe, como o próprio autor conta, a sensação de liberdade. Agira voluntariamente, sem relutância, com alegria. De minha parte, confesso que houve relutância. E muita, aliás. Teve uma enxurrada de lágrimas. Um remoer de situações, de passado, da vida.
No entanto, após realizar o que precisava ser realizado, uma paz muito grande preencheu meu peito, as noites passaram a ser bem dormidas, comecei a sentir alegria e disposição ao despertar, uma dose a mais de paciência surgiu nas situações rotineiras e houve até maior compreensão de todas as partes do convívio diário, inclusive daquela mais pequenina.
Da mesma forma que o escritor austríaco relata, não é que eu acreditasse ter descoberto o sentido da vida, ou pelo menos o sentido da minha vida, mas sabia que minha decisão fora acertada. Thomas, em busca de sua Origem, e de si mesmo, descobre também a literatura. Posso dizer que minhas escolhas também adentraram esse terreno, fazendo com que meu coração serenasse e sentisse, talvez, mais preparado para lidar com as próximas dificuldades do caminho.
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