A decisão pela troca
Já não sei quem eu sou. Quando falo isso não me refiro a nome, CPF, profissão, moradia, família. Eu quero me referir a atos, comportamentos, pensamentos, sentimentos e sensações. De novo a maternidade é meu pano de fundo. Mas é ela – e só ela – que me colocou em uma posição totalmente nova, onde me vi completamente sem chão e sem controle algum, transformando-me em uma desconhecida para mim mesma.
Querer escrever sobre esse assunto novamente veio por conta de uma narrativa de Lygia Bojunga chamada A troca e a tarefa, presente no livro Tchau. Nunca li nada da autora, mas uma amiga muito próxima enviou-me o texto e pediu para que eu lesse e depois dissesse o que senti e interpretei da leitura. É curto, 25 páginas, ela disse. Prometi que leria mais tarde, mas algo chamou minha atenção que eu dei um jeitinho e fui lendo aos poucos enquanto a rotina de casa se desenvolvia.
Deixei aquela leitura fluir dentro de mim por um bom período; longo, aliás. A ponto de esta escrita demorar muito tempo a se concretizar. A ponto de eu precisar ler e reler a história de Lygia de novo e de novo. A ponto de eu rabiscar, riscar, apagar e rabiscar esta escrita várias vezes. A ponto de eu duvidar e simultaneamente ter certeza do que estava sentindo.
Cheguei, enfim, no ponto que mais dialogou com aquilo (que ainda não sei definir) que me acompanha há, mais ou menos, uns dois anos: o sonho da narradora – que mudou sua vida. Nele, que acontecia todo em azul, ela se encontra deitada na praia durante a madrugada e se depara com uma parede – com duas janelas – tapando o mar. Em uma janela está escrito A TROCA e na outra A TAREFA. Naquele momento, a narradora consegue apenas ouvir uma voz da primeira janela.
Em meio ao diálogo que acontece ali, a voz diz a ela: escreva a história dessa dor e eu te livro dela. É uma troca: eu te prometo. De alguma forma, a narradora conseguiu fazer com que aquela voz que se confundia com o barulho do mar chegasse a mim como um aviso, como uma sugestão, como uma mão que, literalmente, segurou a minha garantindo que me livraria do peso que me fazia sofrer.
Mas, será que eu ia conseguir fazer uma história daquilo que eu estava sentindo? Como transformar todo aquele turbilhão de coisas – escolhas, não-escolhas, amores, disputas, solidão, insegurança, indecisão, raiva, implicância, medo, desânimo, ciúme – em palavras, em história?
Resolvi escolher uma entre tantas: o Ciúme. Será que fazendo a história do Ciúme eu me livrava dele e só ficava com a história? Passei, então, a escrever. (continua em algum momento…)
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