Onde meu coração deseja estar
Foi uma troca de livros entre minha irmã e eu. Era para ser presente de Natal, mas chegou só em janeiro. De certa forma, o título calhou muito bem com o começo de mais um ano. "Pra vida toda valer a pena viver", da médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, veio embaladinho com bilhete e tudo.
O que faremos com o nosso tempo de vida até que a morte nos leve?, pergunta Ana logo na introdução. Falar em morte pode soar meio estranho, algo mórbido, mas, definitivamente, não é. A autora consegue trazer esse tema de maneira leve e com muito encanto. Pois, então, o que faremos naquilo que ela denomina de o durante feliz, uma vez que a vida não se resume a aguardarmos pelo final feliz dos contos de fada. Nosso percurso contém muitos finais, começos e recomeços – alguns felizes e outros nem tanto – que merecem um olhar mais atencioso da nossa parte.
Um ponto a se considerar nesse caminho diz respeito a nossa bússola "quebrada" – aqui há a menção à obra cinematográfica, de 2003, "A maldição do Pérola Negra", da série de filmes Piratas do Caribe. Esse instrumento de navegação era dado por quebrado porque não apontava para o norte, mas sim para onde o coração de Jack Sparrow, o protagonista vivido por Johnny Depp, queria estar, o lugar que lhe trazia felicidade e que, portanto, ele gostaria de passar o resto dos seus dias: o tal do Pérola Negra.
E nós? Estamos onde nosso coração deseja estar? E aqui penso não apenas em um lugar físico, como também nos inúmeros papéis que exercemos, nas pessoas envolvidas na rotina da vida, nas práticas que nos trazem prazer, enfim. Talvez, não seja uma pergunta fácil de responder. Para mim, não é. De qualquer forma, a médica pede para que fiquemos atentos à bússola "quebrada" que se encontra dentro de cada um de nós. Ela trará indícios que nos ajudarão a construir o nosso durante feliz.
Acontece que muitas vezes nosso coração pode querer estar em um lugar errado, pode querer amar a pessoa errada, o projeto errado, o trabalho errado, a realidade errada. E aí, como fica? Dentre os nove pilares propostos por Ana para a construção do nosso durante feliz, um está ligado com o cuidar da mente que nos guia.
Nesse ponto, a autora fala de abraçar a tristeza e aproxima essa emoção com o amor. É como se todos nós nascêssemos com algo interno que nos liga a pessoas, realidade e sonhos. Quando há uma entrega verdadeira a essas ligações – olha aí o amor – e, de repente, por alguma razão, somos obrigados a nos desvincular delas, a tristeza vem.
É aqui que eu entro. Somente agora consigo enxergar que estava amando a realidade errada. Ao constatar que essa mesma realidade – que trazia segurança e equilíbrio para o meu mundo interno – desmoronou, a tristeza tomou conta. Antes dela, porém, houve revolta, raiva e tentativas inúmeras de culpar qualquer um ou qualquer coisa que aparecesse pela frente.
Foi necessário conviver com ambas as emoções – tristeza e raiva – durante um certo tempo e chegar na leitura de um livro para começar a entender uma parte do que se passa aqui dentro. Talvez, no fim das contas, seja minha bússola "quebrada" indicando onde meu coração deseja, de fato, estar.
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