Entre andaças e tropeços


    Recentemente notei uma inconstância no ritmo da vida. Como se fosse uma expansão e contração se revezando não só a nível de mundo – estações, ano seguindo ano, dia após dia, as horas –, como ao meu redor – a morte de alguém querido, a doença na família, o nascimento de um bebê – e mesmo dentro de mim – meus desejos, necessidades, vontades e mesmo repulsas. 
    É como se altos e baixos fizessem um acordo entre si para fazer parte da vida humana. C. S. Lewis, em seu livro "Cartas de um diabo a seu aprendiz", chama isso de Lei da Ondulação: os seres humanos experimentam a constância apenas em meio à ondulação, há um retorno repetitivo a um nível do qual frequentemente se desviam, uma série de altos e baixos.
    Nesse livro, que chegou em minhas mãos por meio de indicação, basicamente um diabo se corresponde com seu sobrinho aprendiz. Escrito de maneira cômica e séria, o tio Maldanado dá várias sugestões de como Vermelindo deve "atacar" determinado ser humano – o paciente – que vive na Terra, durante a Segunda Guerra Mundial. O ponto é que esse ser humano, apesar de estar vivendo em meio a um conflito militar global, pode muito bem ser um de nós, habitantes do século XXI. 
    Em uma dessas cartas – a de número VIII –, tio Maldanado orienta seu sobrinho a observar cuidadosamente tal ondulação em todos os aspectos da vida do humano a qual se dedica: seu interesse pelo trabalho, sua afeição pelos amigos, seus apetites físicos, todos têm seus altos e baixos. Ainda vive na Terra? Saiba, então, que enquanto estiver nela, haverá períodos de riqueza e vivacidade emocional e física, bem como períodos de entorpecimento e de pobreza
    Um dia as coisas estão tranquilas e no outro, de repente, algo transforma por completo o que estava caminhando conforme o previsto. Ou melhor, de acordo com o que eu planejei e idealizei aqui dentro e não como a vida opta por seguir seu rumo.
    Foi assim quando fui morar longe da minha família para ir estudar, aos 17 anos de idade; foi assim quando optei por ir morar mais longe ainda, para além do oceano Atlântico; foi assim quando precisei voltar desse lugar distante; foi assim quando aconteceram términos de relacionamentos; foi assim quando ocorreram desentendimentos entre mim e pessoas próximas; foi assim quando o lugar em que eu estava ou a ocupação que eu exercia não mais fazia sentido no meu caminhar; foi assim quando um solzinho brilhante começou a fazer parte da minha rotina e mudou por completo o que eu entedia por tempo, trabalho e renúncia; foi assim quando uma amiga optou por alterar o rumo da sua vida e eu não mais fazia tanto parte dela; foi assim quando pessoas ao redor não conseguiram enxergar a insegurança que bate na criação de um filho. 
    Foi assim com tanta, tanta coisa. Nessa toada, quando o período é de contração ou de baixa, geralmente fico mais quieta, mais introspectiva, mais na minha. E é exatamente esses momentos que Deus – no caso do livro de Lewis, o Inimigo – confia mais, uma vez que as chances de desnudarmos nossa alma são bem maiores.
    Há a chance; isso não significa, entretanto, que eu consiga. De qualquer forma, sinto que quando o solzinho começou a participar da minha rotina, minha ligação com essa ideia superior passou a ser mais genuína, mais espontânea. Aliás, já me questionei diversas vezes por que eu não mantenho uma frequência nessa nudez de minha alma. Ou, nas palavras de tio Maldanado, por que o Inimigo não utiliza os seus poderes para estar sensivelmente presente nas almas humanas em qualquer nível sempre que desejar?
    Simplesmente porque atropelar a nossa vontade não tem valor algum para Ele. Sua ideia não é nos violentar, mas sim nos encantar. E os momentos de baixa, muito mais do que os de pico, são os períodos que nós mais amadureceremos, que mais temos a possibilidade de descobrir o que Ele gravou dentro de cada um de nós. Sua ideia é fazer com que andemos sozinhos, com nossas próprias pernas, e por isso Ele retira sua mão. E se o que restar for apenas a vontade de andar, Ele ficará satisfeito até mesmo com nossos tropeços. Continuo, então, minhas andanças, em meio aos tropeços.

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