Preenchimento de vazios

     

    Terminei de ler "Paris é uma festa" de Ernest Hemingway. Antes de iniciá-lo, porém, devo confessar que minha expectativa era zero. Logo no começo, a sensação mudou um pouco. Do meio para o final a vontade de continuar lendo só aumentava. De maneira geral, o livro traz as evocações parisienses do autor que lá morou durante a década de 1920. Os escritos fazem parte do seu baú de memórias.

    De alguma forma senti querer escrever algo sobre a leitura que fiz, só não sabia bem por onde começar, o que retratar. Não se aborreça, diz Hemingway a mim. E continua: Você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem que fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder. Diante dessa sugestão, eu quem abri meu baú de memórias e fui para o ano de 2008; para o meu quarto cuja janela dava de frente para o Belfast Lough, na instituição irlandesa onde morei e trabalhei; para o mundo do autismo; para as viagens que fiz durante esse período; para as inúmeras experiências que pude vivenciar.

    Foram 10 meses. Inicialmente sofridos, mas que no decorrer do processo tornaram-se bastante proveitosos e significativos. Vejo que tal período foi um divisor de águas na minha vida. Talvez tenha sido o responsável por me fazer enxergar um pouco das minhas habilidades e dificuldades, desejos e repulsas, dúvidas e algumas certezas – todos gravados de alguma forma aqui dentro. Se eu consegui assimilar tudo e aplicar ao longo do meu caminhar é outra história. Mas eu sei que aquele ano trouxe algo muito importante para mim.

    Assim que cheguei ao Brasil, em março de 2009, lembro-me que fiquei muito feliz e, ao mesmo tempo, com uma sensação que até hoje eu não conseguia definir. No capítulo "Fim de um passatempo", Hemingway veio me esclarecer: Qualquer coisa – boa ou má – deixa um vazio quando acaba. Um vazio. O autor sentiu isso ao deixar de frequentar os hipódromos franceses, e eu, quando retornei da Irlanda do Norte.  

    Durante esse ano inteiro o meu objetivo principal foi o de retornar àquele lugar. Minha razão elencou inúmeros motivos: os amigos, a criança que cuidei, o trabalho que fiz, o relacionamento que tive. Nesse momento que escrevo vejo que no fim das contas era para preencher justamente o vazio que sentia.

    E tanto busquei que atingi meu propósito. No final de 2009, então com 22 anos, havia finalizado o quarto ano da faculdade e estava retornando para a instituição a fim de trabalhar como voluntária apenas durante as férias. Foi-me oferecida uma ajuda de custo que praticamente pagou minha passagem de ida e de volta e ainda fez sobrar uma graninha extra. Com ela, fui conhecer Paris. Talvez não a de Hemingway, mas a de Amélie Poulain, cuja trilha sonora ressoou nos meus ouvidos anos a fio. 

    As férias acabaram e outros objetivos precisaram ser estabelecidos para a vida continuar. Mais uma vez, entretanto, lutei por voltar. Dessa vez a ideia era ficar seis meses a fim de fazer o estágio obrigatório da faculdade. Com os papéis em mãos, documentos preenchidos e enviados, aguardei o retorno do consulado irlandês. Mas um erro de escrita meu fez com que tais planos caíssem por terra.  

    Hemingway novamente vem me ajudar: se a coisa em si, que eu estava envolvida, era má, o vazio se enche por si mesmo. Se era boa, só se poderia enchê-lo encontrando alguma coisa melhor. Num primeiro momento fiquei muito triste, com raiva e indignada comigo mesma pela falta de cuidado com a documentação. Passado um tempo, não sei precisar quanto, comecei a manter uma amizade com aquele que hoje é meu companheiro de vida, com quem construí um lar, com quem compartilho os meus segredos mais internos, com quem tomei coragem para ter uma filha e com quem luto, todos os dias, para vencer as minhas imperfeições. 

    No fim das contas, hoje posso dizer que preenchi aquele meu vazio causado pela falta da Irlanda do Norte com algo melhor. Na época não foi assim que eu enxerguei, mas a vida só se dá em meio à sucessão de acontecimentos. De erros. De acertos. De riscos. E por que não de preenchimentos?





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