A ambivalência da maternidade


    As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender. Há alguns anos havia lido "A filha perdida", de Elena Ferrante, pseudônimo de uma autora italiana – sua identidade é mantida em sigilo – que trata sobre a ambivalência da maternidade. Hoje, por algum motivo que eu ainda não quero colocar para fora, resolvi retornar a ele. E essa frase, que termina o primeiro capítulo da obra, já traduziu muito do que se passa aqui dentro.
    Ser mãe foi uma das minhas maiores aventuras. O maior risco que já tomei; o maior medo que já senti; a maior incerteza em meio a tantas incertezas dessa vida. Foi pensado sim, comigo mesma e com aquele que me acompanha há 14 anos, mas a decisão final – ter ou não ter? – necessitou de muita coragem. Aliás, a maior que eu tive até aqui. 
    A responsabilidade de cuidar de alguém. Esse foi o ponto crucial que impedia o meu querer. Eu acreditava que como eu não sabia cuidar de mim direito, como é que eu cuidaria de um neném? Depois dele, vinha uma lista, mas nela não constavam pontos que surgiram depois do nascimento de minha primeira filha: a dependência total de um ser humano por outro; a vivência comigo mesma; o encontro com o maior amor do mundo e também com as emoções mais desconcertantes que eu jamais fui capaz de imaginar. 
    E são essas emoções, envolvidas com suas experiências, que Elena Ferrante traz em seu livro. Para muitos sua escrita, seu relato de mãe, são muito fortes. E eu confesso que, em minha primeira leitura – quando ainda não tinha Cecília –, também o achei. Hoje, após lê-lo, algo em mim viveu o drama de Leda, a personagem principal da trama.
    Uma das experiências da protagonista diz respeito à sua infância e às lembranças com sua família. Leda conta que em alguns momentos de fúria de sua mãe, ela a observava, surpresa e decepcionada, e planejava não ser como ela, tornar-se realmente diferente e demonstrar-lhe, desse modo, que era inútil e ruim que ela nos assustasse com seus "vocês nunca mais vão me ver.".
    Que engano! Bom, pelo menos, é assim que penso: o querer ser diferente pode, muitas vezes, me colocar mais próxima daquilo que desejo me afastar, principalmente se há a intenção, ainda que velada, de mostrar ao outro alguma coisa.
    Vou dar um exemplo do próprio livro: Leda relata que sempre ficava atenta para não gritar "chega, vou embora, vocês nunca mais vão me ver", exatamente como sua mãe fazia quando batia o desespero. Sua mãe nunca as deixou, ainda que gritasse que o faria; a protagonista, entretanto, fez exatamente o contrário, foi embora e sem aviso nenhum, em busca de um emaranhado confuso de desejos – profissionais, de relacionamento, de si mesma – e muita presunção
    Em uma determinada manhã, depois de três anos e trinta e seis dias sem vê-las, ela descobriu que a única coisa que realmente desejava fazer era descascar frutas fazendo serpentes enquanto as filhas a observavam. O choro veio e Leda decidiu voltar, resignando-se a viver pouco para si mesma e muito mais para as duas meninas. Eu também chorei em meio a sua reflexão, e meu anterior julgamento – "como assim ela abandonou as crianças?" – veio logo por água abaixo. 
    Viver a maternidade tem me colocado à prova diante de muitas situações que anteriormente eu apenas apontava o dedo. Cada um vivencia os acontecimentos da vida – e a maternidade, para aqueles que tiveram a oportunidade – de uma forma. Leda "fugiu", mas se não fosse assim, ela talvez não chegasse a essa resignação e não encontrasse com o maior amor do mundo. Calma, eu não estou dizendo que esse é o caminho, afinal cada um tem o seu...
    Isso me faz retornar para a frase inicial desse texto: As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender. Para mim, é difícil falar sobre a maternidade, com todos os seus galhos, uma vez que eu ainda não consigo entendê-la – "como o maior amor do mundo pode confrontar com instantes de fúria e agressividade?". Ou talvez seja porque, até o momento, eu não consiga entender a mim mesma frente a essa nova realidade.



Comentários

  1. Tornar-se diferente é uma batalha em guerra já perdida. E mesmo assim queremos ir a campo...
    É difícil falar, é um não entender como como tornar-se. Em realidade, é um não entender em como tornar-se pessoa...

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    Respostas
    1. Acho que a maternidade faz um rebuliço ainda maior nessa questão de tentar entender como tornar-se. Aliás, lembrei de Carl Rogers e do livro "Tornar-se pessoa".

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