A existência de muitas almas
Quando questionada acerca do primeiro livro de sua vida, Clarice Lispector responde que prefere falar sobre o primeiro livro de cada uma de suas vidas, afinal, para a autora, ela teve várias. Na vida da infância, por exemplo, constam "Reinações de Narizinho" e um outro que continha histórias da lâmpada de Aladim e do patinho feio. Já na vida que levou entre os 13 e 14 anos, Clarice cita "O lobo da espete", de Herman Hesse.
Foi em uma biblioteca popular que o título chamou sua atenção. De antemão, achou tratar-se de um livro de aventuras no estilo Jack London. Após ler, fica deslumbrada. Eram aventuras sim, mas de um outro tipo. Ela conta, ainda, que alguns dos contos que escreveu nessa idade teve inspiração nesse mesmo autor. Recentemente, então, via empréstimo, me debrucei sobre tal obra.
A viagem interior fascinava não só Clarice, como o próprio Herman que parece escrever um romance autobiográfico colocando a si mesmo como personagem principal: o nome aliterativo Harry Heller já indica ser ele o alter ego do escritor.
De início, o protagonista, um homem de cerca de 50 anos, insociável, um ser estranho, selvagem e, ao mesmo tempo, tímido, acredita, de maneira bem simplificada, que nele coexistem dois seres: aquele que almeja o espiritual – o homem – e aquele que só quer satisfazer seus impulsos – o Lobo da Estepe. Tal forma de se auto-observar é a justificativa para compreender seus sofrimentos, bem como necessidades.
A partir do Tratado do Lobo da Estepe, entretanto, há a tentativa de mostrar a Harry Heller que ele está reduzindo a rica e complexa imagem da sua vida a uma fórmula tão simples, rudimentar e primitiva. Não só o personagem da trama mas, de maneira geral, até o homem mais espiritual e altamente intelectualizado pode contemplar o mundo e a si próprio através das lentes de fórmulas enganosas e simplistas – especialmente a si próprio.
No frigir dos ovos, não somos nem unidade e nem compostos de dois – assim como Harry Heller se enxergava – mas de cem ou de mil seres. Aquilo me fisgou! E o Tratado continua: na realidade não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, não há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de matizes, de situações, de heranças e possibilidades.
Ainda assim, nós, indivíduos, vivemos sujeitos a considerar toda essa complexidades que somos como unidade e falamos do nosso eu como se fosse um ente simples, bem formado e muito bem definido. Eu sei quem eu sou, batemos no peito! Parece haver uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer.
Cremos, tal qual o Lobo da Estepe, que duas almas são demais para um só peito e podem arrebentar com ele. Mas, ao contrário, segundo o Tratado, são demasiado poucas e a tendência é nos violentarmos se buscamos compreender-nos de forma tão primitiva. Está aí a razão das dores sofridas por Harry Heller e, talvez, das de muitos de nós: encarceramos a nós mesmos em definições.
Tudo aquilo fez tanto sentido aqui dentro, como se envolvesse minhas crenças, minha leitura de mundo, minha forma de ver a vida e mesmo a minha tentativa de alcançar o inalcançável 'quem sou eu?'. Aliás, a cada dia que passa, sinto que essa definição está cada vez mais além de mim, muito longe do meu alcance, ainda que eu tente – e queira, contraditoriamente, e com todas as forças – chegar a uma conclusão simples e clara: Fulana, mãe de Cicrana, esposa de Beltrano, filha de Deltranos, irmã de Giltrana, moradora da cidade X, formada em Y, com pós-graduação em Z etc. etc.
O homem não é uma forma fixa e duradoura; é antes um ensaio e uma transição. Sem mais.
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