Fuga e encontro, memória e imaginação
Talvez eu já tenha falado sobre a Irlanda do Norte nesse espaço. Talvez tenha, inclusive, descrito a experiência que vivi morando em um país tão distante de minha família. Talvez tenha até citado Barry, o menino a quem tinha a incumbência de zelar. Talvez haja mesmo tecido comentários acerca dos amigos que fiz, do trabalho realizado. Talvez, talvez...
Independente dos "talvezes", minha última leitura ficou me cutucando internamente, solicitando que meus dedos logo corressem para o teclado do computador. "Os escritos secretos", de Sebastian Barry, escritor irlandês, foi o responsável pelo incômodo.
Entre os anos de 2007 e 2008, uma exigência interna clamou para que eu me retirasse do ambiente em que me encontrava. Na época, perfazia meu caminho em uma faculdade no interior do estado, numa cidade não muito longe dos meus pais, irmã e amigos.
Durante muitos anos, entretanto, retratei essa mesma exigência como um sonho de juventude de ir morar fora do país. Mas, na realidade, existia alguns fatos por trás desse sonho: não conseguir lidar com o término de um relacionamento e um descontentamento com relação aos estudos.
O destino escolhido para tentar esquecer os sentimentos – a propósito, acho mesmo que alguns sofrimentos têm de se ser esquecidos [...] ou não sobreviveria como ser entre outros seres – e amainar as angústias daqui de dentro? Irlanda do Norte. Por quê? Porque lá havia uma conhecida; porque lá haveria trabalho a ser feito como voluntária; porque lá desenvolveria o meu inglês; porque lá era um destino pouco buscado por jovens. Assim como os "talvezes", havia muitos porquês.
Lembro-me de que meu pai ficou apreensivo com o local, uma vez que o país era o berço do Exército Republicano Irlandês, o IRA, grupo de paramilitares que utilizou do terrorismo para combater a influência britânica em seu território. E é exatamente nesse pano de fundo histórico que Sebastian Barry constrói o seu romance.
Entre guerras mundiais e civis, o autor traz o drama vivido pela personagem principal, Roseanne Clear (ou McNulty), que vive em um asilo e escreve escondido em folhas de papel a fim de recordar sua história. Há, ainda, a "voz"do Dr. William Grene, psiquiatra responsável pela instituição cujo prédio será em breve demolido pelo governo.
Assim, em meio aos escritos de Roseanne, há os relatos do médico que também retrata sua vida e, ao mesmo tempo, tenta buscar informações acerca dessa paciente em específico. Fatos, memórias e imaginação de entrelaçam de tal forma que em dado momento da leitura achei difícil saber em quem acreditar: na protagonista, no médico, no padre (outro personagem bem importante na trama) ou em minha interpretação?
Aliás, naqueles anos de minha juventude, o que foi fato? O que é memória? E o que é imaginação? Fatos apenas sobrevivem com base nas lembranças e nas criações da mente. Então, fica difícil ter certeza do que se passou, dos acontecimentos, da minha história enfim.
Como a protagonista, penso se será essa a dificuldade, se minhas memórias e minha imaginação repousam ambas no mesmo lugar. Ou uma sobre a outra, como as conchas e areia em um pedaço de calcário, de forma que ambas se tornaram o mesmo elemento. Em vista disso, não consigo facilmente distinguir uma da outra, a não ser que olhe muito de perto.
Ir para a Irlanda do Norte foi uma fuga? Ao longo dos anos achei que sim – imaginação? – mas, ao buscar na memória – será mesmo? – a experiência vivida, notei que talvez tenha sido um encontro comigo mesma, afinal foi a partir dessa pausa que encontros aconteceram, que a decisão de cursar outra faculdade nasceu trazendo na bagagem a própria escrita.
Já Roseanne, através de seus escritos secretos depositados no papel encontrou com alguém muito importante e entendeu vários pontos de sua história. Da mesma forma, a escrita, para mim, também está ligada a essa necessidade de compreensão. E, assim, tudo o que me levou à Irlanda do Norte, bem como as consequências disso, pode ser as duas coisas: fuga e encontro; memória e imaginação.
Continuo achando difícil diferenciar um do outro: a fuga do encontro; a memória da imaginação. No fim das contas, Quem era eu naquele tempo? Uma estranha, mas uma estranha que ainda hoje se esconde em mim, em meus ossos e meu sangue. Que se esconde nessa [...] roupagem de pele. A menina que fui. De qualquer maneira, será que terei sempre certeza do que vivi?

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