Ame, ame, ame
Sábado. 7h30 da manhã. Não é que tenha acordado atrasada, afinal os últimos meses tem vivido de acordo com a demanda deles dois, do lar e de um pequeno ser que passou a fazer morada em suas vidas. Às 8h o encontro começava.
Tia Tamires era a anfitriã. Várias famílias estavam ali presentes envolvidas em um único propósito: solidificar em seus corações os ensinamentos de Jesus. E, como todo sábado, nesse o compromisso firmado tinha a ver com a paciência. "Minha filha, que você se sinta nutrida, regada e iluminada com meu amor e amor de Jesus, cultivando a paciência de sempre esperar pelo fruto bom que a vida tem para nos oferecer."
Assim que o encontro terminou, um véu parece ter coberto todas aquelas vivências. Talvez ela não estivesse de corpo e alma presentes naquele momento, bem como em todos os sábados desde o início do ano. Aliás, o corpo sempre esteve. Esse preocupado com não deixar a pequena comer grama, bater a cabeça na quina do banco, cair, se enroscar no fio do carregador etc. etc.
Foi logo após o almoço que o compromisso firmado se desfez abruptamente. Na verdade, ele foi feito da boca para fora, sem um real sentimento. A paciência foi para o espaço. Houve grito. Choro. Lágrimas.
Sentou-se em frente à escada. Respirou. Silenciou. Olhou para cima e metaforicamente sentiu que ainda havia muitos, muitos e muitos degraus a percorrer. E aquele serzinho apenas a olhava, chacoalhando nas mãos sua colherzinha de madeira, e expressava um sorriso de quem nada havia entendido da cena anterior.
A tarde passou e a noite chegou. Após colocá-la para dormir, os dois resolveram assistir a um filme que havia tempos planejavam: "Nosso Lar 2 - Os mensageiros". A obra cinematográfica, baseada na coleção de livros "A vida no mundo espiritual", de Francisco Cândido Xavier, a fez refletir seriamente sobre o dia, o ontem e o caminho que tem feito até aqui.
Será que está, de alguma maneira, fugindo do seu propósito? Será que, assim como André Luiz, protagonista da série literária, está se distanciando das leis sublimes que regem a evolução das criaturas? É bastante provável, afinal, como o personagem, ainda vive em seus castelos de exclusivismo injusto.
Optou por reler a obra Os mensageiros, publicada pela primeira vez em 1944. Logo no início, André Luiz relembra como, após revisitar sua família terrena, viu-se à feição do caramujo, segregado na concha, impermeável aos grandiosos espetáculos da natureza, rastejando no lodo e extremamente preocupado consigo mesmo. A dor, entretanto, agiu em sua construção mental.
Diferentemente de André, que se encontrava no mundo espiritual, ela, como ser encarnado, viu-se da mesma forma. Dias depois, uma lição do Evangelho a fez relembrar suas atitudes: enxergou a lamentação constante, colocando-se como vítima em relação à vida; o comportamento de achar que sempre está certa a fim de suprir a enorme insegurança que existe dentro de si; a crítica às pessoas e aos seus atos acreditando, inconscientemente, que é maior e melhor do que elas.
Como André, a dor também chegou. Finalizadas as leituras, durante a prece final, o sinal veio. Nela se viu aos prantos sem quase conseguir terminá-la. Em seu pensamento, questionamentos começaram a chegar: o que fazer?, para onde ir?, como reparar tudo o que passou ou como trazer um pouco mais de leveza no seu caminhar?
Ame todo dia. Ame sem parar. Faça tudo pensando que faz por amor...e aí, um dia, quem sabe, vai aprender. É a fala do personagem Aniceto, instrutor do ministério da comunicação, vivido, no filme, pelo ator Edson Celulari.
Parou. A mensagem continuou se repetindo interiormente como se algo soasse dentro dela: ame, ame, ame... Aquilo a acalmou, lavou sua alma e suas lágrimas cessaram. Seu coração pediu desculpas pelos atos anteriores e, de alguma forma, serenou. Por mais um dia.

Lindo!
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