Sobre Deus



    A cor púrpura, de Alice Walker, não estava na lista dos meus livros para ler antes de morrer. No entanto, dias atrás, uma amiga o indicou, e eu prontamente acatei, afinal ele ficou mundialmente conhecido por meio de filme de igual nome, datado de 1985 e dirigido por Steven Spielberg. Há, inclusive, uma versão mais recente, de 2023, cujo subtítulo é "uma abordagem ousada do amado clássico". Confesso que ainda não assisti a nenhum dos dois.
    O enredo trata sobre a história de Celie, uma jovem negra que na primeira obra cinematográfica é interpretada por Whoopi Goldberg. Elas nasceu na pobreza, no sul dos Estados Unidos, em uma cidade segregada, e passou por várias dificuldades que vão desde discriminação, abuso sexual e violência física, até o distanciamento dos seus filhos e irmã. Em meio a esses percalços, entretanto, há uma figura feminina que aparece e faz a vida da personagem principal ser ligeiramente transformada: Shug Avery. 
    Em uma das cartas – o livro é construído em formato de diária/carta – minha atenção foi especialmente fisgada. Nela, Celie, por meio de uma conversa com Shug, demonstra estar completamente descontente com Deus, o vocativo que utilizava em todas as páginas anteriores.
    A protagonista O vê como alguém grande e velho, que tem uma barba cinza e branca, que usa roupa branca e anda discalço; possui olhos frios e grandes, de um azul meio cinzento, com as pestana branca. Afirma, ainda, que o Deus para quem ela escreve e reza é homem e age igual a todos os homens que ela já havia conhecido. É trapaceiro, isquicido e ordinário nas palavras dela. 
    Não sei caracterizá-lO como Celie o fez, mas nas aulas de evangelização de minha infância lembro bem de sua definição: inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Deus não é um ser, Ele está mais para uma coisa, como Shug descreve: Deus é tudo. Tudo o que é ou já foi ou será. E quando você consegue sentir isso, e ficar feliz porque tá sentindo isso, então você encontrou ele. Para ela, nós chegamos ao mundo junto com Deus, mas só quem procura essa coisa lá dentro é que encontra.
    Acredito ter achado a razão por muitas vezes não o encontrar. Fiquei alguns dias remoendo aquela passagem aqui dentro de mim, afinal incontáveis foram as vezes em que me vi em embate comigo mesma em relação a frequentar um espaço físico religioso. Muitas vezes, estando lá, a sensação era a de não presenciar essa força superior. Deus não está na igreja, mas é possível senti-lO quando levamos nosso Deus conosco, diz Shug. E adiciona: a igreja é local para reparti-lo e não para achá-lo. Achei aquilo magnífico. 
    Shug sente que o Deus dela a ama incondicionalmente e por isso ela tenta fazer o melhor que pode para agradá-lO com o que ela gosta de fazer. Como isso?, pensei comigo. E Celie também. Então não é necessário ir à igreja, cantar no coro, alimentar o pastor e tudo o mais?, questiona a protagonista. Não, a não ser que se queira, diz Shug. Admirar o que se vê, ser feliz e se divertir, eis algumas das possibilidades que ela traz. 
    Aliás, a cor púrpura do céu – olha aí o nome do livro – é uma das pequenas surpresas que Deus faz e que facilmente podemos admirar. Por vezes estamos tão ocupados pensando no amanhã, no almoço, na compra do mercado, na escola, no filho, no trabalho, nos milhões de afazeres domésticos, nos argumentos para a próxima discussão familiar, na mensagem a ser enviada via WhatsApp, na postagem a ser feita no Instagram ... enfim, que não temos o precioso tempo para reparar no que Ele espalha a nossa volta quando menos esperamos.
 

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