Reconstruindo memórias ou apenas inventando uma história



    Foi na gravação de uma live – afinal, assistir a lives tornou-se algo completamente fora de cogitação atualmente – que ouviu um comentário sobre "Como um romance" de Daniel Pennac. A frase que a delegada e escritora Roberta Trevisan utilizou logo a fez rapidamente buscar a obra na internet. Comprou, claro. 
   O tempo para ler é sempre um tempo roubado. Você nunca terá um tempo para a leitura se você não fizer uma tempo para a leitura, adiciona Roberta. Dez minutinhos antes de deitar-se, no trajeto até o serviço, na estrada, no metrô, no banheiro. A mesma coisa se dá para a escrita: nunca se terá tempo para a escrita se não se fizer um tempo para a escrita. 
  Prontamente sua lembrança correu lá para a quarta e quinta séries do ensino fundamental. Professora Adriana. Uma pinta marcante e linda no rosto. Pele morena. Cabelos pretos, bem pretos. Muito provável que ela a presenteou com o gosto pela leitura: "O meu pé de laranja lima", "O menino do dedo verde", "O fantasma da ópera", "Açúcar amargo"e tantas outras. 
    Guarda essas obras até hoje, talvez como recordação de uma época que não retorna mais ou, ainda, pura e simplesmente para saber a origem da sua paixão por livros. O que será que a encantou tanto? Melhor: como foi que a educadora conseguiu chamar sua atenção para o mundo literário? É sobre isso o texto de Pennac. A leitura, por vezes, deixa de ser algo mágico justamente quando se torna obrigatória. Não se lê para saber o que o autor quis dizer, lê-se apenas. Tem a impressão de que a professora trazia essa magia quando o assunto era literatura. 
    Foi também naquele período e com a mesma Adriana que o começo da escrita se deu. Guarda até hoje um livro que ela mesma criou com a ajuda de seu pai. Basicamente uma releitura livre – bem livre, aliás – da novela mexicana "Maria do bairro", que passava na emissora SBT, com direito à vilã Soraia Montenegro. Vez ou outra encaminha-se à estante de livros e folheia essa produção infantojuvenil. 
    A história é bizarra, o enredo não tem nem pé nem cabeça. No entanto, consegue enxergar relances de uma paixão infantil, nomes de personagens que tinham um quê de envolvimento nos seus dias de criança e ela própria como protagonista. Tenta, em vão, concatenar as imagens passadas para construir uma memória mais concreta. Impossível. Contata seus pais e alguns amigos a fim de ajudá-la na empreitada, mas a intenção acaba a confundindo ainda mais. Era mesmo no Colégio Novo Século? Não era no Montessori? Professora Adriana? Não era o Itamar? Opa, pode ser a Célia.
    No fim das contas, talvez a ideia não seja reconstruir a memória para chegar a como os fatos realmente se deram. Volta a Pennac. Esse professor não inculcava o saber, ele oferecia o que sabia. Tem a sensação de que a professora Adriana – se foi mesmo ela – oferecia o que sabia. E o mais importante era o fato de que ele nos lia em voz alta! Ah, a professora Adriana também devia ler em voz alta, elevando-a – ela, aquela criança no auge do desejo de aprender – à altura do livro. Foi daí, provavelmente, que veio sua paixão por fazer suas leituras em voz alta quando está sozinha.
  É pelo encantamento. As palavras pronunciadas se punham a existir fora de mim, elas viviam de verdade. E depois, me parecia que era um ato de amor. Pronto, achou a razão do seu entusiasmo, de sua admiração pelas linhas, pelos livros, pelas frases, pelas palavras. Afinal, Sempre tive a impressão de que o amor pelo livro passa pelo amor, simplesmente. Ah!, é o amor que a leva à leitura e à escrita. O amor!

 

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