Minha redescoberta de Clarice
A descoberta do mundo, de Clarice Lispector, foi empréstimo de uma grande amiga. A escritora – que não se considerava como tal – fez parte da minha graduação em Letras, sendo fonte de estudo de um dos meus professores. Desde a formação, entretanto, não me debrucei sobre nenhuma de suas obras, apesar de ter algumas não lidas na estante de casa.
O livro emprestado é extenso e contém crônicas que a autora escreveu para o Jornal do Brasil, de 1967 a 1973. Confesso que muito do que Clarice escreveu não consigo alcançar. Mas, se aquilo que ela coloca em palavras está dentro do meu entendimento e de minhas vivências há, de minha parte, uma sensação de que ela compreendia – a sua maneira – e vivia, profundamente, a condição humana. Por essa expressão quero dizer o ser humano cheio de erros e acertos, de feiura e de beleza etc etc.
Aliás, Condição humana é um dos seus textos. Aqui ela fala da sua pequenez diante do mundo e de como não consegue acertar o passo com ele. Se assim o faz, fica com uma perna mais curta que a outra, uma forma de forçar a ser quem não se é no fim das contas. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável, finaliza.
Já em Persona, termo que logo me fez pensar na Psicologia Analítica, Clarice aborda o uso das máscaras cuja escolha é o primeiro gesto voluntarioso humano. Assim que ela se afivela, o indivíduo ganha firmeza e a impressão é que se supera um obstáculo. A pessoa é. Porém, depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente ela cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão. Já não se sabe quem se é, a menos que se 'renasça'.
Outro texto que chamou bastante minha atenção intitula-se Ideal burguês, com a temática da organização. Em determinado momento, a escritora diz que as pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes sirva de segurança. Uma luz se acendeu!
Corri e compartilhei a frase com outra amiga – essa do mundo das Letras – que logo pensou tal organização para além do material, trazendo a noção de querer controlar os acontecimentos ao redor. Pode parecer um pouco de autoajuda ou uma visão um pouco simplista para alguns, mas, com palavras simples, Clarice conseguiu iluminar grandes questões aqui dentro. Espero que continue assim.
A escritora permanece nessa toada, com trechos profundos que até Guimarães Rosa relia quando não estava se sentindo bem. O romancista confessou, inclusive, que buscava os textos de Clarice não pela literatura em si, mas para a vida.
E, por falar em vida, em Submissão ao processo, ela diz que o processo de viver é feito de erros, sendo que a maioria deles são essenciais. Adiciona também um bocado de coragem e preguiça, de desespero e esperança, e, por fim, de sentimento constante. O processo é difícil?, a autora se questiona. Não há uma resposta pronta e acabada, no entanto, ela lembra do extremo capricho e naturalidade com que uma flor é feita. Que vivamos e erremos, enfim!

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