Coroação de um momento
Em agosto deste ano ganhei de presente de aniversário um livro do poeta, escritor e compositor Allan Dias Castro. A obra, O colecionador de saudades, é a quarta do autor e a segunda que recebo das mãos de uma amiga muito querida.
Geralmente, nossos encontros acontecem em uma padaria ou cafeteria. Dessa vez, não foi diferente. A Doces Momentos – que, aliás, tem uma torta holandesa deliciosa – foi a escolhida. Na ocasião, eu já contava com uma barriga avantajada que carregava Cecília com suas quase 32 semanas de vida.
Nossa conversa girou, então, em torno da temática da maternidade. No quão desafiante e, por vezes, amedrontador pode ser tanto a decisão de ter filhos como o processo todo da gravidez, do parto, do puerpério e o desenrolar da história – que não tem um fim propriamente dito.
Falamos, ainda, das indecisões e decisões; sobre planejamentos, assim como sobre o deixar-se levar pelos acontecimentos, na tentativa de não criar muitas expectativas. Poderíamos ficar ali horas e horas, mas o nosso relógio indicou que o tempo já havia se esgotado. Continuamos a conversa do lado de fora do estabelecimento, por mais alguns minutos e, depois, cada uma seguiu seu rumo.
Um mês depois, essa mesma amiga, que até então não havia lido a obra de Allan, me indicou, via Instagram, a leitura de um dos textos contidos no livro, "A gente não perde quem vive na gente". Ao mesmo tempo, ela pontuou que, talvez, o conteúdo poderia conter um pouco do momento que eu estava vivendo. Não fiz a leitura recomendada de pronto. Aliás, só fui fazê-la depois de a Cecília ter nascido. Já era final de outubro.
Que dizer das linhas escritas pelo autor? Era o que eu precisava. É o tão temido puerpério? Talvez, mas as lágrimas rolaram facilmente com aquele relato. Nele, o ser humano Allan traz, em palavras, o seu pavor em relação a tornar-se pai e a sensação de não estar pronto para tal empreitada, principalmente tendo em vista a guinada na carreira. Euzinha toda.
Assim como o poeta, eu também estava em uma fase profissional muito bacana, experienciando oportunidades diferentes do que até então eu vinha fazendo. É claro que nesse ambiente de trabalho repaginado, havia percalços e dificuldades, mas, apesar disso, eu estava engatinhando em um campo novo e desejado por mim.
O escritor pergunta, então, ao pai se era hora de interromper essa fase tão boa para ter um filho. A resposta do progenitor é certeira e, por isso, eu optei por trazê-la ipsis literis: "Quem falou em interromper? Muda completamente teu ponto de vista a respeito da chegada dessa criança, Allan. Ela vem para coroar esse teu bom momento. Pode ter certeza que, com essa criança no colo, o sentimento vai ser de que nada mais te segura. Confia em mim, essa criança já está vindo. Deixa ela vir, meu filho. Se permita mudar de fase, deixa ela vir. E quando vier, quando não souber o que fazer, apenas esteja presente porque a presença tem muita força."
Acho que eu não precisava de outro conselho. Já era hora de deixar de ser a mesma que eu vinha sendo, cheia de dúvidas e lotada de certezas cristalizadas a respeito de mim e da própria vida. Já era hora também de deixar de esperar pelo momento certo e colocar de lado a ideia de que um dia eu estaria pronta para ser, enfim, mãe.

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