Até hoje


   
    Qual o problema de envelhecer? Essa pergunta foi feita por uma amiga em um grupo de WhatsApp em comum. Ela colocou a questão na roda e trocamos algumas ideias ali mesmo. Mas aquela conversa só me fazia lembrar de um livro que eu acabara de terminar: a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe. É assim mesmo, tudo em caixa baixa. 
    Confesso que até hoje, aos 35, nunca pensei de fato no envelhecimento. Pensar com todas as nuances que o envelhecer traz. Com a possível solidão que vem junto. Com a perda de alguns papéis dentro da dinâmica familiar e social. Com a sensação de querer viver uma nova infância e ao mesmo tempo, contraditoriamente, querer logo morrer.
    Aliás, já vivenciei alguns desses aspectos com os meus próprios parentes, mas sempre com um certo ar de julgamento de quem almeja e até acha que viverá um envelhecer pleno. A obra de valter hugo me fez pensar um pouco além dos estereótipos que eu mesma criei.
   antónio jorge da silva, o narrador personagem do livro, colaborou com esse processo. Aos 84 anos de idade ele perde a mulher, laura, e sente perder também a felicidade, tendo de esvaziar o coração de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Acredita mesmo que lhe levaram os braços, as pernas, os olhos, o coração e, inclusive, a voz.
   Foi assim que chegou ao "lar da feliz idade". No início é a raiva, a casmurrice e a sensação de rejeição que lhe tomam conta. No entanto, no vigésimo terceiro dia, sorri. sorri verdadeiramente como nunca até ali naquele lar, pois percebeu que partilhava aquele espaço com um mito da poesia portuguesa. Fora apresentado, afinal, ao esteves sem metafísica do poema a tabacaria, de fernando pessoa. Conhecer o ser humano que serviu de inspiração ao heterônimo do poeta, álvaro de campos, era uma novidade demasiada!
   A partir disso, seus dias naquele ambiente passaram a ser um pouco diferentes. Conhece o américo, o senhor pereira, o anísio franco, o silva da europa e muitas outras figuras. Cada um traz, de certa forma, coisas boas e reflexivas para sua rotina: conversas, tardes de sol, tolices de velhos, risadas, desabafos, segredos, sonhos, medos. 
    No entanto, a morte, afinal, vem mesmo de todos os lados e leva tudo, mesmo aquilo a que se agarrara para lhe fugir. É preciso agora se despedir desses amigos que fizera ali no lar. Chora pelos corredores e constata que precisou deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. de companhia. de vida
   Há um quê de arrependimento no sr. silva, principalmente, quando o seu próprio fim se aproxima. É como se ele pudesse ter ido mais longe do que viver sua vida somente ao redor de laura e dos miúdos. Oportunidade não lhe faltou. Mas, foi só ali, naquele lugar, que notou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas.
    Talvez o problema que ronda o envelhecer esteja nisso tudo. Nesses acasos da vida dos quais não temos controle algum. O sr. silva, logo no início do seu relato, diz que um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las. Apesar de sua constatação, vejo que ele aprendera sim. E muito. Não foi uma língua e nem a tocar um instrumento musical, muito menos a mexer nessas novas tecnologias. Ele foi além: compreendeu o valor da amizade; percebeu que a vida tem que ser mais à deriva, mais ao acaso, afinal, quem se guarda de tudo foge de tudo; e, por fim, descobriu a encontrar na dor caminhos insondáveis para novas realidades
    



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