O seu coração eu carrego comigo, no meu coração


   

    Foi em um mês de novembro. “Doce novembro”. Não é exatamente o enredo do filme vivido pelos atores Keanu Reeves e Charlize Theron em 2001, mas traz uma história digna da música tema do filme. Foi e talvez continue sendo “Doce novembro” principalmente no coração daqueles que estavam unindo suas vidas para iniciar um novo ciclo juntos. O cenário era uma praia no litoral de São Paulo.

  Aplicativos meteorológicos atestavam que a chuva e o frio fariam presença, até porque eles já vinham fazendo companhia ao longo da semana. No entanto, assim que o grande dia chegou, ambos resolveram dar uma trégua, para a felicidade do casal e dos envolvidos. Assim, todo o ambiente se encadeou e se tornou propício como se se tratasse de um verdadeiro conto de fadas.

    Durante a cerimônia, vários momentos tiveram seu ápice. A entrada da noiva com seus dois pais; a conversa a distância e ao vivo com sua família turca; os votos dos noivos e as declarações particulares feitas um ao outro; o momento da saída em que já os braços do casal enlaçavam-se; a celebração com a trilha sonora perfeita para cada instante; os comes e bebes; os reencontros de amigos de longa data. Dentre todos esses e aqueles que eu não listei devido à falta de memória, um em especial me encantou: os votos da irmã da noiva.

  Assim que ela disse o nome da irmã que se casava, uma lembrança logo chegou aos meus pensamentos: há 20 anos atrás, quando a noiva completava 15 anos, essa mesma irmã fez um discurso dedicado a ela. A cena até hoje faz o riso correr solto ainda que eu não expresse fisicamente. Acredito até que eu aguardava algo assim naquele momento, algo que me arrancasse risadas. Confesso que gargalhei em um ou outro instante, mas as lágrimas facilmente vieram a partir do momento que ela citou um poema de Edward Estlin Cummings. Nunca havia ligado àquelas palavras ao nome do poeta.

  Eu carrego o seu coração comigo, eu o carrego no meu coração. Esses simples versos foram assimilados ali para depois fazerem efeito e morada durante dias e dias, até o papel e a caneta conseguirem lhes dar um rumo. Carregar o outro no meu coração. Uma forma singela de dizer que se está ali, presente. Sempre. Nas dores e alegrias; nas saudades e esperanças; nos sonhos e desejos; nos esforços, conquistas e fracassos; nos desentendimentos e conciliações; na amizade, no amor; nas conversas e ouvidos; nas lutas; nos segredos.

  Não há peso nesse carregar. Ele é leve. Ainda que haja distância física, as ideias sejam desencontradas e os mundos e situações distintos, seu coração está sempre comigo. Sem imposições de opiniões e nem superioridade no falar. Há abertura para o outro, para o novo, para o diferente. Seu coração continua sempre comigo.

    Eu sei que o dia a dia é árduo e que a alma se carrega de situações do trabalho, do relacionamento que não deu certo, dos filhos, do condomínio, da casa, da escola das crianças, da economia não feita, do vizinho mal-humorado e de tantas outras coisas. Ainda assim, carrego e carregarei seu coração sempre comigo. E a vida caminha, além do que a alma possa esperar ou o coração esconder.

    Eu não sei o que E. E. Cummings, esse poeta inglês, continha em si quando resolveu escrever essas palavras. A versão repaginada que utilizo é da irmã da noiva, que gentilmente me cedeu seus escritos. Então, independente se são de Cummings ou de Joana, minha interpretação traz aquilo que me tocou e que carregarei sempre no meu coração.



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