A contraditoriedade nossa de cada texto

 





Sem mais delongas, Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, é o mote da escrita de hoje. Lançado em 2004 nos países de língua espanhola, foi publicado no Brasil em 2005, sendo essa a edição que carrego comigo. 

Da primeira leitura não me recordo de quase nada. Reli-o no início de janeiro, posto que foi a obra escolhida para o clube de leitura online e mensal que faço parte. Um pouco polêmico, Gabo logo de início traz o desejo de seu narrador-protagonista: um senhor – o sábio – ao completar 90 anos de idade quer como presente de aniversário uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Isso já fez render bastante conversa em uma tarde de quinta-feira. No entanto, confesso que me calei durante o encontro, pois ainda estava – e provavelmente, estou – refletindo sobre as sensações que a obra havia causado em mim. 

Fato é que durante e após a leitura, uma cena do filme Capitão Fantástico, de 2016, vinha constantemente dialogar comigo. Nela, Ben Cash, vivido por Viggo Mortensen, pede uma análise de Lolita, de Vladimir Nabokov, para a filha, Kielyr Cash, interpretada por Samantha Isler. Tal obra também aparece na sinopse da orelha do livro de Gabriel García. 

Por que essa cena me veio em mente? Porque tanto a história de Vladimir como a do autor colombiano são escritas sob a perspectiva de um senhor de meia-idade que se apaixona por uma adolescente. Assim como Kielyr, no decorrer da leitura, também entendi e até simpatizei com o narrador. Isso é chocante, é perturbador, é errado, afinal ele é essencialmente um pedófilo, ela diz, mas o amor que sente pela adolescente é tão bonito. Kielyr o odeia, mas ao mesmo tempo sente uma tristeza por ele. É uma artimanha! É uma contradição. Mas foi bem isso o que senti com o sábio de 90 anos de Gabo. 

Por trás do enredo ainda há a poesia de Gabriel. É tudo tão bem construído tendo como pano de fundo uma cidade colombiana dos anos 20 ou 30 do século XX. Será Barranquilla? Talvez. Ou quem sabe uma cidade ficcional como a Macondo de Cem anos de solidão? Não importa, o que importa é que por meio da sua escrita fluida vamos caminhando pelo seu mundo latino. É antiquado? É machista? É opressivo? É preconceituoso? É sua biografia? É certo? É errado? Talvez não seja essa a questão e nem a intenção do escritor, mas sim trazer essa sensação contraditória que muitas vezes perpassa a vida nossa de cada dia. É um retrato, uma visão, uma lente, de um exímio artista. 

Esse mundo latino de Gabriel vem permeado por outros mundos: da música, da literatura, das artes, da vida. O personagem é aposentado, mas continua escrevendo crônicas aos domingos para o El Diario de La Paz e resenhas de teatro e música. Faz, no desenrolar do livro, referência a compositores e intérpretes da música clássica, mas também da ópera, do bolero, do tango e da música folk que gera a vontade de montar uma extensa playlist; as obras literárias nos deixam com um gostinho por ler todas; os quadros e desenhos de pintores nos fazem querer buscá-los no Google.

No entanto, o narrador faz, principalmente, relatos de uma vida, e aos 90 anos parece ressignificar o que é viver: sentiu renascer pelo amor com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheceu em sua vida anterior. Descobre o porquê de sua obsessão por cada coisa em seu lugar, o porquê da sua disciplina, o porquê aparenta ser generoso, prudente, conciliador e pontual. Tomou consciência das suas fraquezas, do seu sofrimento diante de um amor contrariado, de que não era mais o que foi um dia, mas acima de tudo, enxergou enfim a vida real, com seu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos seus cem anos

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