Diálogo por cartas

   
    Cartas. Muito as usei na infância e adolescência. Com as amigas próximas a troca aconteceu aos montes, ainda que morássemos todas na mesma cidade, nos víssemos todos os dias - incluindo os finais de semana - e tratássemos de questões repetidas e já catalogados no nosso rol de assuntos. Com pessoas mais  distantes fisicamente, além das cartas, os cartões postais fizeram seu longo trajeto e morada na parede do quarto durante um bom tempo. Hoje é raro utilizar a ambos. Guardo, no entanto, alguns deles em uma caixa de corda, no local mais gostoso da casa: ao lado da estante de livros. 
    Os e-mails e telefones facilitaram esse processo de comunicação e deles faço bastante uso, mas uma carta é diferente, uma carta manuscrita e com um envelope volumoso é bem diferente. Tudo que eu queria te dizer, de Martha Medeiros, me fez retomar justamente o valor das cartas, das palavras não ditas que querem ser ditas, do papel, da caneta, do envelope, do processo de envio e espera, de todos os enlaces que uma simples carta gera no destinatário e no remetente.
    Trazer à tona certos conteúdos e depositá-los em uma folha em branco requer coragem e renúncia. Não é para qualquer um. Dentre tantas cartas dispostas na obra de Martha, algumas são tão reveladoras, tão corajosas e proveem de remetentes que decidiram não esperar mais, movidos pelo desespero e por uma vontade súbita de transformar o mundo em que vivem. Principalmente,  o mundo interno.
    Uma delas é a de Marisa que escreve à Maria Alice - amiga de longa data - para contar dos sulcos abertos pela visita de Carminha, filha de Maria. Apesar de não se considerar uma mulher de arrependimentos, Marisa tem a impressão de remoer ideias que julgou estarem enterradas, pensamentos que voltam a assombra-la agora: filhos. Não os têm. Não possui herdeiros de sua existência. Abriu mão de um sentimento que nunca irá conhecer para se poupar dos dramas e das angústias da dependência afetiva. Aos 50 anos de idade, porém, traz seu desabafo, inúmeros questionamentos e a interrogação "como seria se?". Respostas não as têm, mas sente falta de tê-las tido por meio das próprias experiências. 
    Outra carta é a de Catarina aos pais. Aos 19 anos ela deixa o conforto da casa familiar e vai morar no Rio na intenção de seguir carreira de atriz. Enfrenta uma cidade bem diferente da que estava acostumada, a solidão perturba seus dias e acaba por trocar sonhos por objetivos, pois estes são mais compactos, ocupam menos lugar e dão mais certo. Sente que perdeu um pouco de si mesma e, ao mesmo tempo,  passou a ter mais noção de quem é. Será atriz para sempre? Morará no Rio até o fim dos seus dias? Eu nem ao menos sei se irá chover amanhã, é sua resposta. 
    Identifiquei-me com Marisa e seus pensamentos; com Catarina e a vivência do presente; e com inúmeros outros remetentes que me transportaram para universos instigantes. Cris e o valor que se dá às coisas materiais; Danilo e a temática do suicídio; Vivian e a morte da mãe; Natália e a sensação de ser uma farsa; e Maria Teresa com a descoberta da própria adoção. Talvez essa identificação tenha acontecido não porque o universo delas seja semelhante ao meu, mas porque um pouco de mim esteja em cada uma dessas pessoas que expressaram, utilizando papel e caneta, suas angústias, seus dramas nada superficiais e seus sentimentos mais profundos. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Começar de novo e de novo

Cecília

Uma decisão acertada