A arte da escrita
Ontem foi um dia difícil. Talvez não tão difícil assim para os olhos comuns, afinal fora qualificada no exame do mestrado. Mas no olhar dela, aqueles inconfundíveis olhos de crítica, de perfeição e de correto, havia, de fato, presenciado um dia árduo. Explicação? Ela sentia que não havia dado o melhor de si em todas as etapas que construiu: em uma pequena parte da pesquisa utilizou de adaptações em cima de um questionário pré-existente.
Sabia que nesse ponto seria questionada. Sim, sabia desde o início. Então, por que ainda assim optou por essa via? Porque existe insegurança, existem prazos, existe solidão. Não são justificativas. Não mesmo. É apenas uma tentativa de se achar nesse momento, de despir-se para si mesma.
Foi vergonhoso ser desmascarada. É essa a palavra. O jeito arrogante da fala do docente a tocou ainda mais a ponto de querer chorar ali mesmo. Mas, por que, se perguntava, afinal ela havia mesmo utilizado daqueles subterfúgios. Talvez o porquê não seja o melhor questionamento. Então, tentemos esse: o que essa arrogância docente reflete? De que forma as críticas te afetam tanto assim?
Vamos para a primeira questão. Muitas vezes foi e ainda é arrogante com as opiniões alheias e, independente do tema, sente que tem a necessidade de mostrar que o seu pensamento é o correto, na reles ideia de que sabe de tudo ou quase tudo. De maneira sutil, os versos de 1986, do Legião Urbana, lhe dão uma dica preciosa: "Mas não sou mais tão criança/A ponto de saber tudo". Os versos a fizeram dar um passo para trás e pensar que, talvez, a arrogância pode não estar no outro, mas dentro de si mesma, por isso seus olhos a enxergam.
O desejo de ser perfeita e de jamais errar configura como resposta da segunda pergunta e, dessa forma, quando as críticas surgem, apontando ainda mais as suas falhas, vê o seu lado autoritário e controlador despontar. Quer se justificar, quer provar os seus passos. E eu pergunto a ela: qual a necessidade disso, de se justificar, de provar? E ela me responde que pode ser que seu orgulho esteja levemente ferido... Quase sem querer surge novamente: "Quantas chances desperdicei/Quando o que eu mais queria/Era provas pra todo mundo/Que eu não precisava provar nada pra ninguém".
E o que fazer com tudo isso? Talvez nada. Por agora, basta. O mais importante é reconhecer o que se é, sem querer mudanças drásticas em cim de comportamentos. Tudo tem conserto, entretanto. Agora está trabalhando nisso, nos ajustes da própria pesquisa e na construção do seu livro virtual, o qual traz certo conforto ao seu coração.
Esse livro dialoga com o que de mais puro e sincero há nos estudos que tem realizado. Ele trata sobre uma parte de si que consegue ser compreendida por meio da escrita. Em Sociedade dos Poetas Mortos, o professor John Keating, vivido por Robin Williams, traz que muitas atividades são nobres e necessárias à vida. No entanto, diz que a poesia, o romance, o amor, essas são coisas pelas quais vale a pena viver. A arte da escrita foi o que a tirou de um lodaçal certa vez e, com certeza, é ela que vai fazer com que renasça do seu orgulho ferido.

Fantástico. Veio muita coisa aqui. Obrigada
ResponderExcluirO que veio? Depois quero saber! ;)
ExcluirLindo
ResponderExcluir;)
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