Paula e uma lição de resignação
Paula, de Isabel Allende, foi sugestão de leitura de uma professora de inglês. Não me recordo da ocasião e data precisas em que a recomendação e leitura se deram, mas vasculhando um pouco a memória, é bem provável que isso tenha acontecido por volta dos meus 20 anos de idade.
Lembro até
hoje da capa do livro – o título aparecia em letras cursivas na coloração
vermelha e logo abaixo vinha a foto em preto e branco da linda filha da autora
chilena – e de como seu conteúdo foi tão impactante a ponto de eu também
aconselhá-lo e emprestá-lo a uma amiga que, na época, fazia cursinho em São
Paulo.
Depois disso,
nunca mais o vi. O tempo passou, mas o contexto geral da obra, na memória,
ficou: Isabel escreve, tal qual um
diário, sobre os dias em que fica ao lado de sua filha, Paula, que adoece
gravemente por conta de uma doença chamada porfiria. Não só isso ficou, mas
também a forma tão expressiva como a mãe-autora abre seu íntimo e descreve as
sensações pelas quais passa durante esse período extremamente sofrido, trazendo
junto a sua história e a da família. Lembro-me de sublinhar vários trechos
enquanto a leitura fluía sem obstáculos.
Anos depois,
disponho-me a lê-lo novamente, mas agora como empréstimo de uma outra amiga.
Foram 12 dias em que adentrei novamente um pouco da vida de Isabel. De Paula.
De um Chile na época da ditadura. De uma Venezuela acolhedora. E de diversos
outros países onde a escritora tece sua caminhada – Líbano, Suíça, Bélgica,
Bolívia, Uruguai, Estados Unidos, Espanha.
É justamente
nesse último país que se desenrola a primeira parte do retrato autobiográfico
da autora. Já a segunda parte acontece nos Estados Unidos, quando Isabel deixa
Madri rumo à Califórnia com a decisão convicta de trazer a filha consigo e
lutar contra a doença. Antes, entretanto, recebe de seu genro uma carta –
escrita com a inconfundível letra de Paula durante a lua de mel do casal – cujo
conteúdo deveria ser lido quando ela viesse a falecer. Por que uma mulher jovem, saudável e apaixonada escreveu, em plena lua
de mel, uma carta para ser aberta depois de sua morte?
A partir
disso, passo a ter, junto com Isabel, um diálogo recorrente sobre perdas, sobre
dores, mas, acima de tudo, sobre paciência,
coragem e resignação diante da morte. Quando, enfim, a escritora dispõe-se
a ler a carta, sente um quê de premonição, de revelação. É como se Paula
soubesse de algo que nós não sabemos.
Olho para
trás, para todas aquelas páginas lidas e vividas por Isabel, para todos os dias
em que a mãe se postou no leito da filha e enxergo um ano de suplícios, mas
também de muito amor. Ela renunciou a tudo e foi se despedindo da filha aos
poucos. Foi se separando de pedacinho em pedacinho: da inteligência de Paula, depois de sua vitalidade e de sua companhia,
finalmente tinha que se separar do corpo. Penso que da alma jamais se separará:
irá reencontrá-la no outro mundo, pois na
realidade, não existe a separação.
Graças à escrita, Isabel se joga nas páginas na tentativa de
vencer seu terror, de dar forma à devastação que lhe domina. Busca um sinal, uma salvação, uma saída para trazer a filha de volta à vida. E consegue.
Não fisicamente, mas ao escrever faz vivê-la em seu coração e no de muitos
leitores, para sempre.

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