Um modo de amar os outros




Foi no Paraná. O mês, janeiro. O ano, 2019. Voltávamos de um passeio por Ponta Grossa, Carambeí, Castro. No retorno, paramos em Londrina, na época, cidade onde um casal de primos morava. De pronto, os anfitriões nos convidaram para um lanche em uma cafeteria não muito longe da casa deles.

Hachimitsu era o nome. Esquina da rua Assunção com a La Paz. Com visual distinto, o local oferecia um vasto menu de delícias de deixar qualquer um com água na boca. Ao me encaminhar, no entanto, para o balcão, no intuito de verificar os doces e demais iguarias e escolher o que mais me agradava, me deparei com um quadro cujos dizeres eram atribuídos a Mia Couto, escritor moçambicano.

Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros.”. Aquelas sentenças chamaram tanto a minha atenção que naquele dia resolvi tirar uma foto. Guardei-a na imensidão de imagens do meu celular.

Um tempo depois – alguns anos, aliás – recordei-me daquele acontecimento de alguma forma e fui logo procurar pela foto, bem como verificar a procedência da expressão. Depois de contatar a prima questionando sobre a data que lá estivemos, achei a imagem. E também encontrei a passagem em um conto de Mia chamado A avó, a cidade e o semáforo presente em seu livro O fio das missangas.

As palavras são da vó Ndzima. Ela as pronuncia ao seu neto quando ele lhe diz que ficará hospedado em um hotel na cidade grande a fim de receber um prêmio do Ministério como melhor professor rural. Provavelmente a palavra hotel não fazia parte do repertório da avó que logo começa a fazer inúmeras perguntas.

Sua preocupação chega ao ponto de querer saber quem lhe faria a comida e o nome do responsável. Na sequência vem o seu desabafo sobre o cozinhar. E é justamente o desabafo da avó que me faz recordar as várias refeições em família em que parentes se dedicavam – e ainda se dedicam – ao alimento que fazem: avós, mãe, pai, tios, sogros, irmã.

         Cozinhar não é um serviço. É um modo de amar os outros. Jamais havia pensado o ato de cozinhar dessa forma. Ou até havia, mas foi algo assimilado como tantas outras verdades que me imponho sem vivenciar e que acabam se tornando uma obrigação. Cheguei até a me revoltar com o verbo. Mas o quadro de moldura dourada no ateliê de delícias Hachimitsu está auxiliando na desconstrução de mais uma das minhas tantas certezas. Cozinhar, no fim das contas, pode ser um modo de amar os outros. 


 

Comentários

  1. Ainda não tinha pensado dessa forma, isto é, cozinhar é uma forma de amar os outros. Por um instante, lembrei-me de minha avó preparando para mim com todo cuidado o queijo derretido na chapa, da minha mãe fazendo seu delícia doce de moranga para me agradar, ou melhor me acariciar. E aqui sigo na mesma linha, coloco meu neto sobre a pia e juntos preparamos comidinhas recheadas de amor. Lindo texto!!

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    1. A literatura nos fazendo repensar algumas das nossas vivências! Obrigada pelo carinho das suas palavras!

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