Um evento, um livro

 


Teatro Glauce Rocha. Uma noite fria. Um evento marcante. Uma companhia especial. Ah, e um presente ideal. Chegara de viagem há pouco e seu corpo pedia descanso, mas o convite inesperado veio e a ocasião, apesar de não ser perfeita, era digna de presença.

Allan Dias Castro, poeta gaúcho, era o anfitrião daquele momento. Já ouvira falar dele e, inclusive, vira alguns de seus pequenos vídeos rolando em grupos de WhatsApp.  Como não era ávida leitora de poemas, talvez aquele primeiro contato não tenha despertado seu interesse e aquele universo passou despercebido.

Foi justamente a companhia daquela noite fria que havia aprofundando seu conhecimento sobre o conteúdo do escritor. Durante a palestra Os loucos podem tudo, Allan conta um pouco do seu caminho e traz reflexões deveras profundas: O que é pior, desistir do que quer ou se contentar com o que nunca quis? e Se a criança que você foi um dia viesse te visitar será que ela se reconheceria?

Tais questionamentos acompanharam o diálogo delas durante o evento, na fila do autógrafo, no retorno para casa, na troca de mensagens pelo celular à noite e ainda por dias a fio. É justamente parte dessas reflexões e do próprio caminho trilhado que o escritor retrata de forma não menos poética no seu livro Voz ao verbo – Poemas para calar o medo. Aliás, foi esse o presente ideal: o livro assinado pelo poeta com direito a dedicatória, foto e até uma rápida conversa ao final do espetáculo.

Ao chegar em casa e se recostar na cama, começa a virar aquelas páginas. O prefácio já é algo que a surpreende. É escrito por Martha Medeiros – uma das autoras que a incentivou a perder o medo de escrever quando ainda era adolescente – e traz brevemente uma visão acerca do trabalho de Allan: uma literatura de autodescoberta. Talvez aí esteja o encanto que a fez se identificar tanto com a obra.

Foi passando por cada um dos poemas – que revelam algo mais do que isso – que ela sentiu como se fizesse parte daqueles versos, daquela história, daquele roteiro (errante e muitas vezes distante do literal). E mais, as linhas de Allan a fizeram refletir sobre o medo e a insegurança, a tentativa de encaixar-se a um padrão, o seguir as expectativas alheias, o sonhar o sonho do outro, o esperar reconhecimento de fora, a sensação de perder-se em meio ao caos da vida, o não querer ser a mesma a vida inteira, a inevitabilidade das mudanças, o tornar-se quem realmente se é.

Semanas transcorreram desde aquele encontro, mas os assuntos ainda reverberam internamente como se fosse o dia do evento. Definitivamente a ocasião daquela noite não era a perfeita, mas foi o aceite que a fez sentir-se acolhida e reconfortada diante do baú de sentimentos que envolvem não só ela, como também o poeta e, com certeza, muitas outras pessoas. Não, ela não está sozinha.

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