A parte que falta
Uma memória:
aula de literatura. 1º ano do ensino médio, talvez? Qual era mesmo o nome da
professora? É preciso perguntar para sua irmã. Lícia! Isso mesmo! Em uma das
suas aulas que tanto adorava, Lícia trouxe a música Faltando um pedaço, de Djavan. É muito provável que ela já
tinha ouvido antes, mas naquele ambiente escolar, Lícia trouxe uma leitura a
mais daquela composição que até hoje lhe faz bem aos ouvidos.
Pode ser que o tema
da aula tenha sido figuras de linguagem, afinal a letra de Djavan possui muitas
metáforas, comparações, personificações e antíteses. Mas a escrita de hoje não
traz isso como foco. A lembrança desse episódio veio, porque caiu em suas mãos
o livro A parte que falta, de Shel
Silverstein. Quem lhe apresentou ele foi Jout Jout.
Era 2018 e
aquela leitura, de pronto, já lhe arrancou lágrimas. 4 anos depois, a leitura
do livro físico não fez mudar muita coisa. O enredo trata basicamente dessa busca
incessante por alguma coisa que falta em nós. E essa busca parece ser, na
maioria das vezes, por algo que está fora. Um curso novo, desenvolver uma nova
habilidade, encontrar um amor, comprar o último smartphone, fazer uma viagem,
trocar de carro, mudar de casa, achar um novo emprego, alterar a profissão,
constituir uma família, ter muitos amigos, ser reconhecido, voluntariar-se. Algo
lá fora trará uma satisfação interna, uma sensação de completude. Mas, será
mesmo? De que são feitas as pequenas felicidades?
No livro, o
personagem – um ser redondo, nas palavras de Fernanda Takai – sente,
finalmente, ter encontrado uma parte sua que estaria faltando. E essa parte se
encaixa tão perfeitamente às suas questões existenciais (um amor? um emprego? uma realização pessoal?) que ele passa a rolar
muito rápido na vida a ponto de não ter mais tempo para conversar com uma
minhoca ou sentir o aroma de uma flor ou, ainda, deixar que a borboleta pouse em
seu corpo.
Eram essas as
suas pequenas felicidades e em nenhum momento ousou tê-las – a minhoca, a flor,
a borboleta. A experiência de que gostava era de ser ele mesmo diante desses
acontecimentos simples da vida, ainda que em uma busca contínua pela parte
que lhe faltava. A busca, aliás, era vivenciada em meio a aventuras, caindo,
batendo a cara e se perdendo no caminho, como canta Djavan.
Ao se sentir completo, entretanto, essas pequenas felicidades foram perdendo certo espaço, mas nunca deixaram de existir de fato em sua constituição. Foram retomadas a partir do momento em que percebeu que ser completo ou sentir-se completo dependia dele mesmo. É assim que o personagem é. É assim que ela é. É assim que somos. Eternos “buscadores” de algo que nos falta. Sempre fica faltando um pedaço, conforme o compositor alagoano diz, a fim de que possamos aprender a nos sentir completos por nós mesmos.

Você é demais! Adoro os seus textos!!!!!!!
ResponderExcluirFico feliz por você continuar lendo!!
ExcluirQue lindo, é muito gostoso ler o que você escreve
ResponderExcluirMais gostoso é saber que você está lendo! ;)
ExcluirSempre muito bonito molha!!parabéns!!! E que bom que esta de volta!
ResponderExcluirMolho, obrigada!!
ExcluirLinda mensagem e linda a forma como foi transmitida, parabéns! Precisava ler isso hoje...
ResponderExcluirObrigada, Gabriel! Fico feliz! Espero que meu "amontoado de palavras" tenha te ajudado tanto quanto me ajudam.
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