Uma lembrança do sul
Era uma noite
de quinta-feira. 19h30. Estava sentada em um amplo auditório de uma instituição
pública na cidade onde moro para participar de uma palestra com o professor e
escritor Luiz Renato Pinto.
Em uma de suas falas, ou talvez fossem apenas elucubrações, ele disse gostar
muito de ler uma obra e estar presente no cenário onde o enredo se passa.
Guardei aquilo comigo.
Alguns dias antes de rumar de férias para o sul do país, resolvi reler o romance histórico O continente, de Erico Verissimo. Ele integra O tempo e o vento, trilogia escrita e publicada durante 1947 e 1962 que retrata em formato de ficção parte da história do Rio Grande do Sul, desde a ocupação do território do Rio Grande de São Pedro até o ano de 1945, fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial.
O ano de 2013 foi a primeira vez que o li e de lá para cá, muito tempo se passou, muitos ventos correram e muito da minha memória se esvaneceu. No entanto, de alguma forma, o encanto pela obra ficou e a deixa da viagem somados à dica do professor, logo me fizeram virar aquelas páginas já amarelecidas.
Percorrer as estradas sulistas e poder estar em cenários que talvez Erico tenha se inspirado para construir sua obra, fez com que minha experiência ali fosse diferente. Senti que meu olhar era outro e assim como o personagem Carl Winter, um alemão que foi exercer a medicina em Santa Fé – cidade ficcional no Rio Grande do Sul criada por Erico –, tomei bebedeiras de horizontes diante de paisagens indescritíveis. Elas eram de uma pureza e simplicidade tão grandes que o dr. Winter descobriu o mais poderoso motivo de sua estada na cidade. Nunca em toda a sua vida vira céus mais largos nem sentira tamanha impressão de liberdade. Foi justamente esse cenário que me deixou estupefata.
Nascida e
criada em Mato Grosso do Sul, onde o cerrado, as planícies, as grandes culturas
e o Pantanal fazem parte do meu entorno, é de admirar a visão dos pampas
gaúchos com suas temperaturas amenas, dos enormes planaltos e cânions, dos
extensos parreirais, das florestas de araucárias com seus pinhões, das árvores
de magnólias carregadas de flores... e a sensação do vento, claro.
Aliás, o vento parece ser um personagem do romance, pois Ana Terra costumava dizer que sempre que lhe acontecia alguma coisa importante estava ventando. Encontros, mortes, lutas, nascimentos. Dentre todos os dias ventosos da vida de Ana, um havia ficado guardado fortemente na memória: aquele em que conhecera Pedro Missioneiro. A partir dessa relação, que parece ser a origem do clã Terra Cambará, Erico nos oferece a sua visão sobre a formação cultural e histórica do Rio Grande do Sul, incluindo nela a vertente platina, sem excluir, no entanto, a lusitana.
Foi junto com
Ana, Arminda, Bibiana, Maria Valéria, Alice, Luzia, Ondina, Ismália e tantas
outras que participei dessa história, marcada por várias lutas entre os homens
– tomada do território das Missões, Independência do Brasil, Revolução Farroupilha,
Guerra do Paraguai, Guerra do Prata, Revolução Federalista – que não deixavam
de ser as lutas delas também, cujo destino estava sempre fadado a fiar, chorar e esperar. Fiar a renda
de bilro enquanto, em lágrimas, aguardavam pelo retorno do marido, do filho, de
um parente, irmão ou amigo.
- Há de chegar um dia em que não haverá mais guerras. Dr. Winter pronuncia essas palavras, mas sem muita crença, afinal pensa que elas não acabariam nunca pela simples razão de que os homens jamais deixariam de praticar as tolices que levam os povos à luta. Pensamento retrógrado? Talvez, mas traduz muito dos nossos dias atuais...
Com a Revolução Federalista, última grande guerra civil do século XIX na região do Rio Grande do Sul, em que maragatos e pica-paus lutam entre si, Erico finaliza a primeira parte de seu romance. O vento uivava. É onde eu finalizo mais uma história, não sem antes pensar sobre os dias ventosos de minha vida. Aqueles no sul certamente ficarão guardados fortemente na memória, como uma lembrança e também como um retorno histórico, onde o tempo deixou de existir por um momento e o vento ganhou especial atenção. Está ouvindo?
Muito lindo
ResponderExcluirContente com seu retorno ;)
ExcluirNossa que lindo texto! Sinto que estou lá nessa viagem e voltei ao tempo! Obrigada por compartilhar suas memórias!
ResponderExcluirA ideia é essa mesmo, fazer com que sinta parte do que escrevo. Agradeço por tirar esse tempinho para ler!
ExcluirInteressante o discorrer da sua história se entrelaçando com outras histórias. Vejo a leitura como uma viagem de muitos caminhos, às vezes, reais e, em outras vezes, caminhos aos quais nossos pensamentos nos levam. Parabéns!! Sua história tem sentimento!! Aplausos!👏👏👏😘
ResponderExcluirObrigada pelas palavras! A escrita, pelo menos a forma como a vejo e tento trazer, é justamente a expressão dos sentimentos...
ExcluirOutro lindo texto. Faz-nos pertencer à história. Parabéns!
ResponderExcluirFico contente por você ter gostado. E que bacana essa sensação de pertencimento. Acho que escrever é também, para mim, essa tentativa ... de fazer vocês pertencerem ....
ExcluirAo ir percorrendo a leitura do texto, confesso que o vento tocava minha face. Adoro esse "poder" que um texto tem de nos transportar para dentro de uma história. Ventos também fizeram (fazem) parte de minha vida.
ResponderExcluirOlha só, depois desse depoimento vou querer saber como os ventos participam da sua caminhada! ;)
Excluir