Tempo perdido?
O sol bate lá
fora e Chico se esparrama sobre sua luz. Escuto seu ronco à distância. De
dentro do escritório, ao som de Legião Urbana na rádio, paro de fazer as
alterações em meu último trabalho para dar atenção à letra: Todos os dias quando acordo, não
tenho mais o tempo que passou.
Tanta coisa
ficou para trás. Hoje, aos 34, tento retomar minha biografia em detalhes.
Detalhes, não. Tento pinçar memórias, acontecimentos específicos, dores e
alegrias, conquistas, mudanças. Tanta coisa aconteceu.
Amizades se
construíram, outras se findaram. Laços se fizeram. Leituras vieram. Estudo e
faculdade trouxeram vivências, encontros e desencontros. Escrita surgiu
trazendo conforto e logo se foi. Um intercâmbio apareceu como solução e como
respiração. Um novo curso universitário veio, um novo olhar nasceu, um novo
começo (ou seria recomeço?) raiou. Um amor aconteceu e permaneceu. Mais estudos
e, consequentemente, mais caminhos. A distância, mais uma vez, tornou-se pano
de fundo. Um cachorro começou a fazer parte do contexto. Perdas vieram. Novas
amizades apareceram.
E tanta coisa também
não aconteceu: a escrita não se consolidou; os conhecimentos da primeira
faculdade não foram usados; a carreira profissional fez seus contornos e
tornou-se amedrontadora (ou seria libertadora?); a instituição, tão almejada,
pediu calma e alguns passos para trás; filhos não fizeram parte do pacote; meu caminho, por fim, não seguiu por uma trilha palpável.
Ainda estou
escutando Renato: Mas tenho muito tempo,
temos todo o tempo do mundo. Os 35 estão logo aí e a composição musical me
fez pensar se há de fato esse tempo e se os não acontecimentos ainda podem vir
a ser realizados. Será, afinal, que o caminho é tão palpável assim? Serão as
situações tão categóricas e as sensações estanques? Serão as metas tão claras
ou é minha visão distorcida e confusa demais? Para onde seguir? Que direção
tomar?
Sempre em frente, não temos tempo a perder. O
som ainda chega aos meus ouvidos. Letra incoerente? Se tenho todo o tempo, como
não tenho tempo a perder? No entanto, é essa ideia dual que me conforta: tenho
todo o tempo para retomar algumas questões, recalcular a rota, mudar
prioridades e modos de viver e partir para uma outra via; da mesma forma, não
faz sentido perder tempo com situações sem significado ou que não acalentam o
coração, afinal a vida é mesmo efêmera.
De alguma
maneira, meus questionamentos ganham um aconchego. É só aqui dentro que eu chegarei
às respostas. Ou não. É o tempo que dirá. E cada um com o seu tempo individual para
compreender as coisas, para sentir, para enfrentar, para desistir, para lutar. Temos nosso próprio tempo. Sim, é Legião que ainda toca. Desligo o rádio. Retorno ao trabalho. Chico ainda dorme lá fora.

Arrepiei! Ficou incrivelmente fantástico o texto! Amei
ResponderExcluirQue bom que gostou! Expressões do que se passa por aqui...tenho certeza que algo parecido pode passar por aí também!
ExcluirPrecisamos fazer uma oração ao tempo, já dizia Caetano... e que venham os 35! Tempo, tempo, tempo, tempo.
ResponderExcluirAdorei a lembrança! Pensei agora em Pato Fu ... tempo amigo, seja legal!
ExcluirGostei demais
ResponderExcluirFico muito feliz com seu retorno!
ExcluirAmei!!!! Como sempre! !!!
ResponderExcluirE eu amo que você esteja lendo! Obrigada pelo retorno!
ExcluirQue bom que se sente acolhida. Acho que essa é uma das intenções que tenho quando escrevo. ;)
ResponderExcluirAdorei!!! Tempo, tempo, tempo...
ResponderExcluirA sua escrita me fez olhar para dentro de mim e perceber que aos 62 anos, ainda tenho alguns recomeços e muitas incertezas, mas por acreditar no tempo certo de cada coisa, tento não exigir muito de mim. Continue a nos encantar com seus textos!!
Fico feliz por ter feito você fazer esse mergulho interno!! ;)
ExcluirLeitura gostosa de um assunto fundamental.otima conversa com Renato Russo e com a gente!
ResponderExcluirGostei de poder ter te proporcionado essa conversa!
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