O encanto pela dança


    Nunca tive muito encanto pela dança. Aliás, dançar, para mim, sempre foi algo completamente fora de cogitação, sinto não fazer parte do meu biótipo, coordenação motora e personalidade. Minha irmã, entretanto, frequentava o ballet semanalmente, enquanto eu postava-me sentada a assistir os ensaios repletos de pliés e piruetas. A vontade de vestir collant ou calçar sapatilha não veio. E, na adolescência, as pistas de dança nunca foram atraentes, seja em festa de debutantes, casamentos ou formaturas.

    Ao ser convidada para ir a festivais de dança, sempre dava um jeitinho de negar. Se comparecia, não era muito por vontade. Mas, um dia, uma ocasião surgiu de maneira tão singela e repentina que fiquei pensando dias sobre a possibilidade de estar presente. O convite veio de uma de minhas amizades mais recentes e contava com um pano de fundo que sou apaixonada: o cinema.

    Ao chegar ao ginásio onde o espetáculo se daria, logo no estacionamento, tive um impulso de voltar. Entrei, afinal já estava lá. Um palco, cadeiras, folders, algumas pessoas, cheiro de pipoca. Na espera pelo início, abri o folder e vi os filmes que seriam abordados. Séries e novelas também seriam contempladas. Mas, como eles fariam a ligação com a dança? Olho o relógio do celular, já na ânsia de constatar quanto tempo ainda faltava para o término.

    De longe vi minha amiga chegar. Acenei e fui ao seu encontro. Um sincero abraço de agradecimento por ambas estarem ali, presentes. Sentei-me novamente, sempre com o folder em mãos. Como estava sozinha naquele ambiente novo, parecia que o folder me dava segurança, então, vez ou outra, folheava aquele papel buscando pelas mesmas informações.

    Um pouco antes das luzes se apagarem e a apresentação começar, minha amiga insistiu para que eu me sentasse mais próxima do palco, ao lado de alguns de seus familiares. Acatei a ideia, afinal minha visão com astigmatismo seria privilegiada com esse deslocamento. Foi a melhor coisa que poderia ter feito, pois com a primeira coreografia já fiquei de queixo caído. Literalmente. E ainda tive a chance de poder compartilhar de emoções, sensações e mesmo dúvidas com as pessoas que estavam ao meu lado.

    Ilha do medo, filme de 2010, do diretor Martin Scorsese, abriu o festival. Pelo menos para mim. As cenas escolhidas foram tão precisas que Leonardo DiCaprio, Michelle Williams e Mark Rufallo surgiram na minha frente. O vestuário, o cenário e a trilha escolhida junto com a coreografia fizeram o filme ser exibido aos meus olhos, mas não era o mesmo filme. Era uma releitura, uma versão totalmente diferente.

    Depois vieram outros. A cinco passos de você, um filme que nunca assisti, mas que chorei diante de uma dança ao som de Andy Grammer. Outro que fez com que lágrimas rolassem foi Titanic. Sim, Titanic. Não só revi cenas marcantes, mas também o dia em que fui à estreia no cinema. Eu tinha, então, 10 anos, mas me recordo como se fosse hoje: a fila imensa de pessoas para assistir aquela obra cinematográfica vencedora de 10 Oscars, a parada no meio do filme para esticarmos as pernas, o antigo cinema ao lado do Shopping Campo Grande, as pessoas que estavam comigo, o choro de grande parte dos espectadores. Tudo isso veio nessa encenação “dançada”.

    Teve até Velozes e furiosos, um longa-metragem que nem aprecio muito, mas que na performance dos dançarinos ganhou um novo destaque. Eram uns 20 bailarinos, entre homens e mulheres, movimentando seus corpos com maestria seguindo o ritmo do próprio enredo dessa saga americana que se concentra em corridas de carro. Ali não havia carros e nem precisava. Os corpos já bastavam por si sós.

    A série de mistério, Lúcifer, também teve sua representação com efeitos visuais de causarem espanto. Até hoje eu vejo a cena passando diante dos meus olhos e tento imaginar como eles conseguiram produzi-la. Recordo-me que eu cutucava a pessoa sentada ao meu lado, demonstrando meu espanto com tanta singularidade.

    Todas as apresentações me tocaram de alguma forma e acho até que sei como eles conseguiram fazer com que eu tivesse sensações totalmente opostas do que eu aguardava. Cada um dos dançarinos estava ali de corpo e alma, com plena noção dos passos, da música ao redor, dos movimentos do seu próprio corpo e do corpo dos outros. Fizeram-se presentes. Ali, naquele momento. Em cada dança. Aliás, eles conseguiram mais do que isso, fizeram nascer o encanto pela dança aqui, dentro de mim.


Para Sandra.

Comentários

  1. Lindo texto! Levou-me a refletir sobre algo que nunca me questionei: o que a dança me faz sentir?

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  2. Excepcional. Parece que estou na platéia.

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    1. Que bacana! Se consegui essa sensação fico bastante satisfeita!

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