Uma boneca e seus entrelaçamentos
Era uma sala repleta de mulheres. Mães, avós, senhoras, jovens, filhas, tias, professoras, artesãs, costureiras. E repleta, também, de tecidos, linhas, sacos de plumante, tesouras e agulhas. Mãos e materiais trabalhavam juntos para a criação de – quem diria – uma boneca de pano. Nunca imaginei criando uma, mas foi ali, naquele espaço acolhedor, que a minha primeira boneca nasceu.
Entre tantas opções, Heidi chamou a minha atenção. Acho que a escolha se deu pelo coração. Além disso, por trás dessa boneca específica, havia, para minha surpresa, uma história literária infantil que eu desconhecia completamente. Foi graças a uma moça de cabelos cor de fogo e espírito aventureiro que tomei conhecimento da obra de Johanna Spyri – Heidi: a menina dos Alpes.
Não nasci no frio dos Alpes Suíços, nem em uma área rural em meio a cabras, mas alguns momentos da história de Heidi se entrelaçam com a minha trajetória. O Tio dos Alpes, seu avô, era marceneiro e vivia encantando a neta com suas habilidades. Assim como ele, meu avô também tinha o mesmo ofício, o que logo me fez recordar as férias de fim de ano em que eu e minha irmã passávamos horas na presença de ripas e serragem enlaçados com o cheiro inconfundível de madeira.
Era ali, no galpão, localizado no subsolo da casa, que o vô trabalhava diariamente e que nós, crianças, brincávamos de casinha, de cozinheiras e, claro, de assistentes. Aliás, ele também participava de nossas brincadeiras construindo alguns móveis em miniatura, desde mesas e cadeiras, até o bercinho do bebê – lembro, com ternura, das grades, cortadas e lixadas, uma a uma. O vô não tinha um trenó para nos levar montanha abaixo até a aldeia, como fazia o avô de Heidi, mas tinha uma caixa de papelão onde nos colocava para descer o Morrão da Praça Diogo do Amaral. Ali, nos entretínhamos durante horas e a vó sempre estava lá, de olho nas nossas peripécias.
Falando em avó, na história, Heidi possui duas avós de coração que tinham uma ligação com a religião. É bem forte, ali, noções como Deus, castigo, recompensas e oração. Ainda que o livro tenha sido lançado em 1880 e possua, portanto, alguns costumes e hábitos que diferem bastante do meu contexto, bem como da minha compreensão, isso me despertou um sincero interesse.
Orar foi sempre algo bem difundido no meu círculo familiar, entretanto, nunca foi o meu forte, nem o de Heidi. Ela foi aprender a orar – e criou o hábito – devido às contingências da vida, porém inúmeras vezes se questionou a eficácia de tal ação. Ainda hoje me questiono. De alguma forma, tal assunto, no enredo de Johanna, me fez refletir sobre essa “conversa” com a sabedoria interior, presente em cada um de nós e que, aos poucos, fui deixando de lado no decorrer de minha história, mesmo que dificuldades e momentos felizes tenham ocorrido. O contexto pede um retorno? Quem sabe?
Uma boneca de pano. Uma história infantil. Um avô marceneiro. O hábito de orar. Temas que se interligaram e me fizeram compreender o porquê da escolha de Heidi como boneca a ser confeccionada. Definitivamente, foi pelo coração.
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