Idealizações
Até pouco tempo atrás, eu acreditava piamente que idealizações eram extremamente necessárias para qualquer processo da vida. Era preciso idealizar o futuro, por exemplo, para saber para onde ir. Idealizava, portanto, tudo.
Na infância, o foco eram meus presentes e brincadeiras. Na adolescência, as notas, as festas, os encontros e o percurso acadêmico. Já na fase adulta, as idealizações seguiram um caminho mais sério: profissão, relacionamentos, viagens, casa e a própria ideia de família, religião e filhos.
Fato é que, geralmente, ao projetar o ideal, acabo me aferrando nele com tanto afinco que aquilo que sai fora do planejado, frustra. Não idealizo críticas, erros e falhas. Nem lágrimas, paradas ou retornos. O ideal é belo; é perfeito e sempre repleto de elogios, palmas e sucesso; normalmente, não carrega problemas e há uma certa busca por estabilidade e segurança.
Isso logo me fez retomar Aldous Huxley e seu Admirável Mundo Novo, onde o escritor traz uma noção de ideal. Ali, entretanto, a busca por estabilidade e segurança é tamanha que a palavra perde um pouco do sentido genuíno a ponto de tornar-se um padrão. Preciso abrir um parêntese que chega a ser mais um questionamento interno: (de certa forma, as minhas idealizações também não eram/são um padrão?). Fecho o parêntese.
Na obra de Huxley, os indivíduos são biologicamente condicionados e vivem em uma sociedade organizada por castas. Existe a bokanovskyzação, o soma e a hipnopedia, todos artifícios para trazer ordem à comunidade e tornar o ser humano feliz, responsável, seguro e, claro, padronizado. Não há a pessoa com a sensação de ser ela mesma, de sentir-se livre para ser feliz de outro modo, de ter sensações com intensidade, de modificar o trajeto da vida.
Era, basicamente, um planeta mecânico, como canta Humberto Gessinger. Foi o que senti ao ler o livro de Huxley e, em parte, sinto o mesmo quando projeto ideais impecáveis (aliás, ideais são sempre impecáveis). Acho até que Humberto, provavelmente, não só fez uma releitura de Supertramp para escrever a sua Fábula, mas teve como inspiração as linhas de Aldous – que, por sua vez, parecia amar a obra shakespeariana.
Como na letra de Humberto, em Admirável Mundo Novo, grande parte dos personagens sabiam de cor como tudo começava e como terminava. Uma outra visão surge, porém, quando John, um selvagem que aprendeu a ler a partir das obras de Shakespeare, aparece na trama desejando (ou idealizando?) ser livre e aprender mais sobre a vida.
Diferentemente dos ideais dos habitantes do Mundo Novo que clamavam por conforto e felicidade, os de John vislumbravam solidão, Deus, poesia, perigo autêntico, bondade e pecado. Ele desejava o sofrimento, assim como enfrentá-lo. No fim das contas, John reclamava o direito de ser infeliz em meio àquela sociedade sensata demais.
De novo me coloco a pensar nas idealizações que formulei, para mim, no decorrer do caminho e vejo que, talvez, seja necessário, como Gessinger, fazer uma releitura da fábula que construí até aqui. Quem sabe, o ideal não seja apenas conceber uma visão perfeita, bela e cheia de prosperidade sobre qualquer processo da vida, e sim compreender aquilo que torna o humano ser, enfim, humano.
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