O peso e a leveza da educação
Educação vem do latim – educatio – e significa, dentre os inúmeros sentidos, ato ou efeito de educar(-se). Fiquei na mesma. As próximas definições dispostas no dicionário, no entanto, trazem a questão do método imbricada nas explicações: educar é a aplicação de um método próprio; educar é o conjunto desses mesmos métodos; educar é o desenvolvimento metódico de uma faculdade, de um sentido.
Bingo!, afinal sempre pensei que tendo o domínio de determinados métodos e também de técnicas eu tornaria o educar algo fácil, simples e até passaria a apreciar tal ação. Ainda que, durante a adolescência, fase de algumas escolhas vocacionais, educação e ensino não se tornaram rumos acadêmicos, foi em um voluntariado que a vontade brotou de alguma maneira.
A partir disso, comecei a procurar os tais métodos, as tais técnicas, a fim de me apropriar dos conhecimentos e ser capaz de fazer da educação minha profissão. Uma nova faculdade, especialização, cursos livres, palestras, workshops, mestrado, enfim, um mundo de aprendizados.
Passado um tempo, a educação foi se tornando mais um peso do que um desejo. Nunca foi algo fácil e simples, mas eu acreditava que poderia vir a apreciá-la, afinal eu tinha uma bagagem de conteúdos, métodos e técnicas. Ainda assim, me sentia sem “nenhuma” experiência. Falo nenhuma usando aspas, porque penso em experiência a partir do que o professor Larrosa explica: aquilo que me passa, me acontece, me toca.
Apesar de ter afinidade por esse universo, senti, após um longo e dolorido processo, que, no formato de sala de aula, a educação me passava, me acontecia e, por fim, me tocava, mas não da forma como eu idealizei. Havia um imenso sofrimento interno por detrás e alguns questionamentos advindos de minhas leituras: qual é, pois, o sentido da educação? O que almejamos com ela?
É Jiddu Krishnamurti, filósofo e educador indiano, que trabalha essas e outras perguntas: será que vivemos nesse mundo para sermos pessoas iminentes? Para conseguirmos empregos melhores? Para termos sucesso? Para termos conforto e segurança? Para sermos mais eficientes? Para termos domínio sobre os outros? Para sermos valorizados e reconhecidos? Se essa é a nossa luta, de fato temos uma vida muito superficial, vazia, incompleta, contraditória e cheinha de temores.
Agora, se sentimos que a vida tem um significado mais alto e mais amplo, que valor teria, então, a educação? Se ela não integrar pensamento e sentimento, bem pouco valor terá, diz o filósofo. Lá nos idos de 1980, ele afirmou, ainda, que a educação não despertava esse sentido de integração e sim nos induzia a nos adaptar a um padrão, a buscarmos nossa segurança pessoal e a lutarmos em nosso próprio interesse.
Até hoje sinto ser isso o que continuamos propagando tanto na educação escolar como na maioria das instituições e lares. E não, definitivamente, educação não é isso! Também não é apenas acumular conhecimento, juntar e ligar fatos e adquirir técnicas. Seu princípio e fim é “compreender o significado da vida como um todo” e isso implica, necessariamente, a compreensão de nós mesmos – o autoconhecimento.
Para tanto, Krishnamurti diz que é preciso estarmos cônscios das relações que temos. E isso não diz respeito apenas a pessoas, mas também à propriedade, às ideias, à natureza – é claro que tudo isso logo me fez lembrar de Fromm, que aborda os modos ser e ter de existência. É por meio dessas relações, que funcionam como um espelho, que é possível observar o movimento do “eu” e, portanto, iniciarmos o processo de autoconhecimento.
Talvez, nesse ponto, o cultivo de uma técnica ou método pode me habilitar a compreender a mim mesma e, por fim, compreender a vida – princípio e fim da educação! De forma alguma, ainda são as palavras do filósofo que ressoam internamente: só é possível chegar à técnica, experimentando. Sem preocupações, sem modelos, sem idealizações. É assim que a música nasce, que a argila se molda, que qualquer trabalho surge e que a educação é, por fim, leve...

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