Ter ou ser?


    Desde minha adolescência, depois que frequentar o grupo de jovens começou a fazer mais sentido, ouvia minha mãe proferir a frase “é mais importante ser do que ter”. Essa sentença foi assimilada interiormente e eu acreditava nela sem reservas. Achava até que sua consecução era algo simples e de fácil alcance.

    Naquela idade, meu entendimento era de que era mais valioso eu buscar ser uma pessoa melhor internamente do que buscar por ter, cada vez mais e mais, coisas. Assim, ser uma pessoa de caráter e honesta é mais importante do que ter muito dinheiro no bolso, por exemplo. Parece simples. No entanto, é contraditório, afinal precisamos das coisas materiais para vivermos. Precisamos pagar contas, necessitamos do alimento, de uma casa, de roupas e por aí vai.

    Essa minha visão mais ingênua da questão mudou um pouco depois que chegou as minhas mãos um livro de Erich Fromm com um título bastante ligado à frase de minha mãe: “Ter ou ser?”. Inicialmente, Fromm diferencia esses dois verbos, que ele denomina de modos de existência, e traz versos de Tennyson, Bashô e Goethe para exemplificar sua visão. À sua maneira, o autor conseguiu me fazer sentir, por meio dos poemas, essa linha tênue entre viver sendo e viver tendo.

    Achei até que eu vivia no modo ser. Mas, no decorrer da leitura, me vi inteirinha pendendo para o modo ter de existência. Vou me explicar: nos poemas, Fromm está lidando com diferentes modos de se relacionar com uma flor. Ao trazer, entretanto, essa mesma relação com outras situações da vida, como conhecimento, formação, carreira profissional, família, amizades e cônjuge, por exemplo, foi que eu percebi que o modo ter predomina ainda na minha forma de viver.

    O próprio uso de substantivos prevalecendo sobre os verbos pode mostrar um pouco do nosso tipo de caráter. Isso não é uma regra, é apenas uma visão que, inclusive, serviu para eu começar a reparar em todas as relações que apontei mais acima. Como me relaciono, por exemplo, com o aprendizado? Eu conheço algo sobre ou eu tenho um conhecimento sobre algo?

    Aliás, o conhecimento, o conhecer algo, é processo, é uma atividade e, portanto, não é uma coisa que se pode possuir, mas apenas, viver. Assim como o amor, a compreensão, o afeto. No modo ter de existência, o relacionamento com o mundo é de posse, onde se quer ter tudo e todos, inclusive a nós mesmos e aos outros. Vivenciamos tudo como propriedade.    

    Quantas vezes me vi anotando cada palavra de um professor ou palestrante, de maneira tal que eu pudesse assimilar o conhecimento e reproduzi-lo em um exame? Ou, ao me perturbar diante de novas ideias sobre determinado assunto, uma vez que elas podem pôr em xeque meu acervo fixo de conteúdos? Ou, ainda, quando leio algum livro na ânsia de saber o que acontecerá no final, sem vivenciar o aprendizado, sem compreender o herói ou heroína, sem aprofundar meu conhecimento sobre a natureza do ser humano e, portanto, sem ganhar conhecimento sobre mim mesma?

    E é assim que eu vivo, na reles tentativa de me apropriar dos processos e atividades. Talvez quando penso em pessoas, o modo ser fique mais claro – racionalmente falando – no sentido de saber que não as possuo. Mas na hora que transferi minha compreensão para outros processos da vida – que Fromm traz no seu livro –, vi que o modo ter era absolutamente preponderante, então, provavelmente, ajo no mundo da mesma forma com as pessoas, quer se trate de amizades, de familiares ou de cônjuge.

    Logo o letreiro brilha internamente: o que fazer?, como romper com o modo ter de existência e aumentar o domínio do ser? Não é o objetivo de Fromm nem o meu responder a essa pergunta, afinal, trata-se de uma mudança de sentido, de processos, de algo a ser vivenciado e aprendido conforme a nossa verdade interior. Por agora, deixo a pergunta: de que modo você vive?

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