Uma janela para o meu turbilhão


    Era final do ano de 2021. Eu me encontrava na casa de meus tios, em São Paulo capital. Conhecedores da minha paixão por livros e leitura, logo me guiaram para a estante de livros, onde um me fascinou: Não apresse o rio (ele corre sozinho), de Barry Stevens. De início achei tratar-se de um escritor homem, pois logo busquei no meu baú de memórias a vivência que tive com uma criança chamada Barry. Isso foi lá nos idos de 2009, última vez em que o vi. Era férias de verão. Ou seria inverno? Depende do hemisfério. Lá era inverno. Aqui era verão. Enfim...

    O nome do livro também chamou a atenção dos meus tios que, inclusive, comentaram que nunca haviam lido a obra e que tinham até receio de lê-la e acabar com a expectativa que criaram em cima do próprio título. Aliás, o exemplar foi adquirido em 1980, durante o 4º ano de Psicologia que minha tia cursava. A fim de eliminar aquele receio deles, eu mesma me dispus a fazer a leitura.

    Parecia tudo confuso no princípio e ficou pior no meio. Mas, confesso que, em determinado momento, as vivências da autora começaram a conversar com as minhas e encontrei a conexão. Assim como Barry Stevens, algo estranho também tem se passado dentro de mim: não sei o que quero. Da vida. De mim. E parece que a partir do momento que as letras se transformam em palavras e essas em sentenças, eu começo a saber. É passageiro, entretanto, pois logo começo a pensar.

    E a ideia trazida por ela, imbricada com a Gestalt-terapia e com o pensamento de Krishnamurti, é de deixar as coisas acontecerem, não pensar muito sobre, não tentar controlar os acontecimentos e me dirigir. Livrar-me de convicções e interpretações, de certezas, dos “tenho quês”. Estar presente, notar as coisas ao meu redor. Ter consciência e atenção diárias: consciência de como falo, do que digo, de como ando, de como respiro, do que penso. Aprender com as pausas. Descobrir sozinha.

    Tantos ensinamentos que logo me vejo querendo organizá-los para melhor compreendê-los. Claro, olha eu tentando novamente dirigir meus pensamentos, controlar as situações. É assim que fui treinada a fazer. Nunca ser apanhada desprevenida também. É sempre melhor estar um passo na frente do outro e de determinadas circunstâncias.

    E é justamente no momento que paro de pensar e de controlar tudo a minha volta que deixo de ter opiniões. Aliás, parece que não ter opinião é um disparate nos dias de hoje. É preciso opinar, é preciso se posicionar! Aqui, entretanto, o sentido é mais profundo. Deixar a opinião de lado torna possível muitas coisas e uma delas é que fico mais interessada em observar, em examinar. Perscrutar, como diz Barry Stevens. Procurar penetrar no segredo das coisas e da vida em si.

    Pode parecer confuso, eu sei. Como assim não pensar? É claro que deve existir um pensar-nada errado e um certo, não? Talvez o ponto esteja em quanto remoo meu passado ou quanto anseio pelo futuro – Não apresse o rio, ele corre sozinho. É Tolstói que me ajuda nessa confusão: “Existe apensas uma hora que é importante - Agora! É a hora mais importante porque é a única hora que possuímos algum poder.”

    Volto ao início. Ainda não sei o que quero. Da vida. De mim. Falo isso no Agora!, de Tolstói, e vejo que meu pensamento voou lá longe, no amanhã, no mês que vem, no fim do ano, nos 5 possíveis anos que ainda virão. No fundo, eu sei o que quero: um novo começo. No entanto, é preciso aprender a me deixar acontecer e deixar que a vida aconteça. O meu novo começo já começou.

Comentários

  1. A leitura me fez lembrar uma frase de Augusto Cury em um de seus inúmeros livros "Cada ser humano, seja ele intelectual ou iletrado, é uma grande pergunta em busca de uma grande resposta" e complementa, "que o tamanho da pergunta determina o tamanho da resposta".

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    1. Fez todo o sentido! Estou pensando sobre isso agora...obrigada por essa troca!

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